É apanhando que se aprende?

Por Evandro Coggo Cristofoletti

As eleições municipais confirmaram a suspeita de muitos: candidatos à direita do espectro
político ganharam força e os progressistas perderam. Apesar de simplista, essa afirmação pode ser
um bom ponto de partida para nossa análise.

Outro ponto de partida interessante seria considerar que nosso arranjo institucional
democrático não dá mais conta das aspirações da população e que temos um sistema político
esgotado. Haveria, nesse sentido, um descontentamento geral, por exemplo, com os partidos
políticos tradicionais e com a tão falada “velha política” – quem assistiu o horário eleitoral
certamente notou que grande parte dos candidatos, sejam de partidos de esquerda ou direita,
conclamavam ser os expoentes de uma política renovada. Novos partidos, como o REDE, talvez
tenham tentado explorar esse descontentamento ao adotarem o discurso marinesco de “nem
esquerda x nem direita”.

Independente de concordarmos ou não com esta visão, pensamos ser razoável considerar que
vivemos em tempos estranhos: um golpe engendrado “por dentro” de nosso sistema político; uma
quantidade expressiva de votos nulos, brancos e abstenções em diversas cidades (como em São
Paulo, cuja soma destas três categorias superou o candidato vencedor e também, claro a votação nos
outros candidatos); e um discurso liberal e conservador cada vez mais fortalecidos. Nesse último
ponto, não só o discurso, mas projetos concretos levados a cabo pelo Conde Drácula do Planalto – o
personagem da Transilvânia que nos perdoe a comparação – e seus maestros situados na elite
econômica e financeira nacional e global.

Bom, e a esquerda nessa história? Pensamos que ela esteja em uma situação tal qual um
lutador que, já nocauteado, sonha que ainda está de pé desferindo socos e chutes. A esquerda está
esgotada. O Partido dos Trabalhadores e seus aliados saem fragilizados em sua legitimidade perante
a população, muito por conta do golpe político e midiático orquestrado e, claro, por avançar demais
na conciliação de classes e nos acordos espúrios, configurando-se, muitas vezes, em algo que seria
difícil classificar como esquerda.

Já a chamada “oposição de esquerda”, entendida aqui de forma geral, parece não conseguir
construir nenhuma organicidade considerável com a população – ou com a “massa”, em um
vocabulário mais corrente. Seu discurso liberal, muitas vezes irracional, em conjunto com um uso
vazio do rótulo “socialista ou comunista”, talvez contribuam para esta dificuldade de diálogo. Não
conseguem, muito por força das teorias e das práticas que levam a cabo, dar conta de seus próprios
conflitos internos, quem dirá ter força suficiente de ação coletiva de massa. Mais estranho ainda é
usar a alcunha de “poder popular”. Alinham-se, muitas vezes, aos discursos da direita ao adotar o
“contra tudo que está aí”. Algumas vitórias, reconhecemos, ocorreram muito mais apoiadas em
aspectos de carisma e capacidade individual do candidato (como o Freixo, no Rio de Janeiro) do
que em reconhecimento geral de um projeto político-programático partidário ou coletivo.

Ambas fazem sua parte no tão falado sectarismo. O que estamos falando não é nada novo. O
ponto que gostaríamos de frisar neste último parágrafo é o de que, apesar de tudo, tanto o primeiro
quanto o segundo grupo ainda acreditam estar no caminho certo. Ainda acreditam que seu projeto
político é o melhor, o mais revolucionário, o mais bonito. Todos conclamam: “representamos a
esperança da esquerda”; “somos a luz no fim do túnel” – ou, “ainda somos a luz no fim do túnel”;
“é só uma questão de tempo!” Porém, seria mais produtivo, em vez de sonhar durante o nocaute,
reconhecer a derrota, admitir os erros, e tentar voltar a bater outra vez. Talvez não precisemos de luz
no fim do túnel para nos orientar. Na verdade, talvez precisem de um pouco mais de estudo,
reflexão e práxis. Porém, talvez seja pedir muito aos hedonistas.

Evandro Coggo Cristofoletti, Mestrando em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp.

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