Libertação

Por Luís Fernando Praga

Dormiam bem, em suas camas quentes, no país dos sem teto, terra e vez. Por mérito, podiam ter seus dentes e engoliram 2016. Hipócritas comuns à luz do dia, às escondidas eram bem mais lobos, compravam a notícia mais macia das vitrines febris de rede globo. Sua verdade toda poderosa tinha o cheiro de um podre recorrente e sua acusação religiosa era a fogueira, a cruz e a corrente. Habituaram-se a tratar por bosta a arte, a ciência e a cultura e exigiam de Deus, como resposta, os vagabundos numa viatura. E vagabundo era todo mundo que não fosse um reflexo no espelho, Chico Buarque era vagabundo, vagabunda era a dama de vermelho, os estudantes, os educadores, os sonhadores de uma ideia bela, os miseráveis com as suas dores e a Geni, Letícia Sabatella. Então caçaram os heróis diários, lendários, fatigados e feridos, também filósofos e operários e todos precisavam ser detidos. Perigosos eram os questionadores, os que clamavam por justiça isenta, pra não dizer que não falei das flores… olhos cegados e sprays de pimenta. Odiavam os gays, os comunistas, punks, poetas e os black power e mandavam pro inferno algum artista nalgum descontraído happy hour. Seus ídolos, perfeitos e fascistas, muito machos com medo de mulher, cagavam suas pérolas machistas que seus filhos comiam de colher. Temiam mães com as mamas de fora e execravam pobres infelizes, levaram a corrupção embora dando gordos aumentos aos juízes. Seus olhos não sabiam enxergar, mesmo assim, eram onissapientes, matavam pra não ter que argumentar, felizes, governados por serpentes.

Havia, entrementes, mil sementes, plantadas desde sempre e sem lamúrias, pelos solos do mundo e pelas mentes cientes das angústias e injúrias. Havia gente que ousava crer, que não há maior lucro que o amor, que a liberdade pode vir a ser, antes da volta de um “Nosso Senhor”. Havia quem nascesse para a luta, pra caminhar pra frente como espécie, pra desbancar cada ilusão fajuta, pra dar as mãos e não mentir em prece. Havia quem soubesse da prisão dos dogmas, das leis e do normal e quem abrisse a mente e o coração antes de abrir o bolso ao capital. Havia gente cheia de esperança, que não se acovardava por decretos, que via um líder em cada criança e justiça no mundo de seus netos. Havia os descendentes da poesia, havia os crentes na felicidade, libertos dessa intolerância fria, unos na imperfeição da humanidade. Havia os dissidentes de um sistema que escravizava os frutos bons da Terra, adeptos de uma transformação extrema, seguiram pela paz, em meio à guerra. Seus olhos tinham brilhos diferentes e os diferentes fomos todos um, unimo-nos no belo que há nas gentes, em amplas frentes pelo bem comum.

Então, simples assim, de tanto querer bem que a vida deu, ninguém no mundo era menor que eu e o mal do desamor chegou ao fim, aí fomos irmãos no mesmo lar e havia liberdade em toda parte, pela luz da ciência e pela arte, na intenção de amar, amar, amar…

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