O lixo nosso de cada dia

Por Alessandra Pereira

Um tempo atrás observei uma cena: uma pessoa coloca o seu lixo para fora de casa e logo depois aparece um indivíduo, abre o saco e mexe no lixo.

No momento eu percebi um certo incômodo da pessoa, que ficou parada só observando. Afinal, até que ponto o seu lixo continua sendo seu?

De acordo com a advogada Jaqueline Martin, depois que você joga o lixo ele deixa de ser seu, passa para o município toda a responsabilidade conforme a lei nº 11.445, dentre outras que estabelecem a separação de resíduos recicláveis descartados. Porém se a pessoa descarta algum componente nocivo ao meio ambiente ou a outras pessoas diretamente sem observar as recomendações, ela deverá, tanto quanto possível, ser responsabilizada.

Com relação a objetos pessoais, cada um é consciente do que deve ou não ir para o lixo que, depois de sair das dependências domésticas, passa a ser passível de apropriação por outrem. Mas depois de conversar com várias pessoas de diferentes profissões, todos relataram essa mesma situação de incômodo. Eles ressaltam o fato de que quando isso ocorre geralmente o saco fica aberto ou o lixo espalhado, ocasionando uma situação desagradável.

Não posso deixar de citar nesse momento Luís Fernando Veríssimo, com a sua crônica titulada O Lixo:
“Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
– Acho que não. Lixo é domínio público.
– Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. ”

Ela descreve a conversa entre dois personagens que observam um o lixo do outro; e quanta informação estava naquele lixo, que por ser pouco já indica que a pessoa era sozinha, revelava também o que ela gostava de comer, se chorava porque tinha muitos lenços em seu lixo.

Nesta vida agitada que levamos não paramos para refletir o quando tem de informação no nosso lixo de cada dia. Por isso, a advogada Jaqueline Martin ressalta que as pessoas devem ter cuidado ao descartar  e que cada qual deve ser consciente do que deseja (ou não) conceder um possível acesso aos demais. “O consumismo exagerado dos dias atuais tem possibilitado uma produção imensa de lixo. É preciso ser consciente ao consumir”, afirma.

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