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Lampejos literários

“Seu corpo em aposentos pequenos e grandes, seu corpo subindo e descendo escadas, seu corpo nadando em lagoas, lagos, rios e oceanos, seu corpo atravessando terrenos enlameados, seu corpo deitado no capim alto de um prado vazio, seu corpo caminhando pelas ruas de uma cidade, seu corpo subindo morros e montanhas, seu corpo sentado em cadeiras, deitado em camas, estirado em praias, percorrendo estradas do interior de bicicleta, atravessando florestas, pastos e desertos, correndo em pistas de atletismo, pulando em assoalhos de tábua corrida, lavando-se em boxes de chuveiros, entrando em banheiras de água quente, sentado em vasos sanitários, esperando em aeroportos e estações ferroviárias, subindo e descendo em elevadores, espremido em bancos de carros e ônibus, caminhando na chuva sem guarda-chuva, sentado em salas de aula, perambulando por livrarias e lojas de discos (que Deus as tenha), sentado em auditórios, cinemas e salas de concerto, dançando com garotas em ginásios de colégios, remando em canoas em rios e lagos, comendo em mesas de cozinha, comendo em mesas de salas de jantar, comendo em restaurantes, fazendo compras em lojas de departamentos, lojas de artigos eletrônicos, lojas de móveis, lojas de ferragens, lojas de roupas, sapatarias e mercearias, em filas para tirar passaporte e carteira de motorista, reclinado em cadeiras com as pernas apoiadas em escrivaninhas e mesas enquanto você escreve em cadernos, debruçado sobre máquinas de escrever, caminhando no meio de nevascas sem chapéu, entrando em sinagogas e igrejas, vestindo-se e despindo-se em quartos de residências, quartos de hotéis e vestiários de academias, subindo escadas rolantes, deitado em leitos hospitalares, sentado em mesas de exame médico, em cadeiras de barbeiros e dentistas, dando saltos-mortais na grama, plantando bananeira na grama, pulando dentro de piscinas, caminhando lentamente em museus, jogando basquete em playgrounds, lançando bolas de beisebol ou futebol americano em parques públicos, experimentando as diferentes sensações de caminhar em pisos de madeira, cimento, ladrilhos e pedra, as diferentes sensações de pôr os pés na areia, na terra e na grama, mas acima de tudo a sensação de pisar em calçadas, pois é assim que você se vê sempre que para para pensar em quem você é: um homem que caminha, um homem que passou a vida caminhando por ruas de cidades”.

Paul Auster, Diário de Inverno

[AUSTER, Paul. Diário de Inverno. Trad: Paulo Henriques Britto. 1ªed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014]

Cultura Carta

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