Por Henrique Nunes
O primeiro verso saiu meio que desconexo, mas estava dentro do contexto. “Ó, alguém aí quer jiló”, soltou Mané, que desde 1979 rema contra a maré e, sabe como é, ainda tá de pé. Pois é, o botecão do São Quirino, cujo proprietário parece um menino, agora deu pra ter de inquilino muito mais que João, Maria e José.
Antes de começar a prosa é de bom tom versar agora o que há lá no Sarau de Dalva: o boteco há nove meses (sempre na segunda quarta-feira do mês) mantém o repeteco de servir bem e recitar sempre. É assim mesmo, enquanto a breja e o rango surge a esmo, a freguesia quebra o marasmo com poesia e pleonasmo: afinal, bar e literatura dançam juntos muito antes de haver alguma escritura.
O primeiro a falar foi o sub-dono do bar. “A poesia não está aqui pra ser heresia. Então, por favor, freguesia, soltem a voz, o corpo e vamos começar a anarquia”, avisou Rafa Carvalho, espécie de orvalho, carta fora do baralho, na Campinas que virou sua moradia.
A prosa ia, enquanto o povo bebia e a noite caía. E Rafa só queria fazer de sua mais-valia toda e qualquer poesia. Quem diria, que no meio daquilo tudo tanta poeta surgiria. Até quem silêncio fazia, como o fotografo Diogo Zacarias, resolveu participar daquela fantasia.
No início pareceu estranho, ver todo aquele rebanho tirar tantos versos das entranhas. “Sarau sara e saravá”, disparou Filipe Pesquero, um dos clientes mais participativos da roda. E até mesmo o Mané, baiano de Castro Alves, mostrou que papo e poesia também enchem o copo da freguesia e se encheu de fé. “No meu bar, poeta ou não, a cultura fez seu lar”.
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