Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.
O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.
Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.
Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.
Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.
Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves separar
Teu sucesso de teu fracasso.
Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.
(tradução de Augusto de Campos)
* Boris Pasternak foi um poeta e prosador russo, nascido em Moscou a 29 de janeiro de 1890. Filho do pinto Leonid Pasternak (1862 – 1945), fez parte da chamada Era de Prata da poesia russa, que vários críticos declaram começar com Alexander Blok e seguir com os companheiros de geração de Pasternak: Anna Akhmátova, Marina Tsvetáieva, Óssip Mandelshtam, Vladimir Maiakóvski, Vélimir Khlébnikov, entre outros.
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