Categories: Ideias e Prosas

Fala, dona!*

Cida Sepulveda

“Você não fotografa com sua máquina. Você fotografa com toda a sua cultura.”
(Sebastião Salgado)

Cipriano Luckesi falou no dia 05 deste mês, no teatro do Sesi Amoreiras**, sobre o papel da escola na formação da pessoa cidadã. Ele não usou a expressão “pessoa cidadã”. Mas, não é meu objetivo reproduzir o seu discurso, e sim, tecer alguns comentários sobre os pontos em que sua fala afina com meu modo de ver a educação.

O filósofo coloca o professor como figura central da educação, ou seja, está nas mãos desse profissional o despertar do aluno para o gosto pelo conhecimento, para a curiosidade intelectual.

Além do professor, ganha destaque em sua fala a importância do diretor como sendo aquela pessoa que lidera o grupo, quase um guru, capaz de dar o tom de vida do ambiente.

Outro ponto essencial abordado é a questão do conteúdo. Mais importante do que aplicar todo a matéria exigida em manuais oficiais e expressa nos livros didáticos é fazer um diagnóstico da condição dos estudantes e, a partir daí, definir o que será ensinado.

Sobre a avaliação, ele a vê como uma consequência do aprendizado, e não como uma forma coercitiva de obter resultados, o que faz enorme diferença para o aprendiz que centrará sua energia na compreensão e não na repetição mecânica do conhecimento.

Segundo Luckesi, 95% da população mundial tem condições normais de aprendizado, ou seja, muitos daqueles que são diagnosticados como não capazes, provavelmente, não estão recebendo a educação de que necessitam para se desenvolver.

Para ele, o jovem que realmente aprende não tem dificuldade para conseguir boas pontuações em testes avaliativos promovidos pelos governos. Ou seja, o problema não são os testes, como muita gente diz ao justificar o mau desempenho dos estudantes de escolas públicas, mas o despreparo dos alunos.

Inclusive, ao ser referir às condições materiais para o aprendizado, ele diz que uma escola pode ter a melhor estrutura física do mundo, mas se não tiver recursos humanos robustos, não desenvolverá uma educação de qualidade.

Luckesi insiste num ponto: a educação pública não é um presente para o povo, mas sim a contrapartida ao pagamento dos impostos. Portanto, é preciso que todos assumam o compromisso de justificar o dinheiro aplicado.

Na verdade, o filósofo, simplifica o simples que, por “n” motivos, se tornou complexo demais: o professor deve ser autor de seu trabalho; o diretor é o regente da orquestra escola e os alunos, os aprendizes, a razão de ser dos primeiros.

O péssimo desempenho dos jovens de escolas públicas em exames nacionais se deve à improficiência em leitura. Esse é um ponto indiscutível, já que um bom leitor pode dar conta da maioria das questões de conhecimentos gerais, principalmente, no ensino básico.

No meio educacional, em qualquer nível, é comum encontrarmos professores que não possuem sólida formação intelectual. A meu ver, esta é uma das grandes barreiras para romper o círculo vicioso da ignorância que emperra o desenvolvimento de um Brasil pensante.

O que justificaria o despreparo dos professores, no caso, os do ensino básico? Sem dúvida, as condições de trabalho indignas, como: salários baixos, excesso de trabalho, ambientes nefastos para a saúde psicológica, com gestores despreparados e autoritários.

Mas, essa realidade não pode ser impeditiva a ponto de provocar a falência da educação.

Quando falo em despreparo não me refiro ao investimento em diplomas, títulos e certificados. Não precisamos de títulos vazios, obtidos para fins outros que não a sabedoria. Necessitamos urgentemente de leitura e cultura, muita.

Como disse o filósofo: o conhecimento nos dá a possibilidade civilizatória. Somos uma nação jovem que tem muito a crescer, a se desenvolver, principalmente, nos aspectos sociais, éticos e morais.

A meu ver, é urgente que professores arregacem as mangas e façam a diferença, que cobrem do poder público o suporte necessário para a educação de qualidade e que também mostrem o resultado concreto de seus esforços.

*expressão usada pelos alunos quando a professora espera o silêncio para começar a falar.
**evento promovido pela Fundação Feac-Campinas.

Carta Campinas

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