Somos muito comuns, não somos poucos,
Donos das atitudes descabidas,
Os messias, os pios e suicidas,
Nós somos reis, facínoras e loucos.
Somos políticos e indigentes,
Somos os doutos e analfabetos,
Somos as opressões e os afetos,
Os escravos, os sãos e os doentes.
Somos os que estupram e segregam,
Cospem no chão, esmurram e intrigam,
Veem filhos morrendo, mas nem ligam,
E os que abraçam, desejam e se apegam.
Somos os mesmos, sempre desiguais,
Adúlteros, cruéis e mal amados,
Hipócritas, perfeitos, rotulados,
Fascistas e homossexuais.
Nós somos padres, queiramos ou não,
Criamos budas e os ditadores,
Somos intolerâncias e amores,
E padecemos sob a nossa mão.
Somos os cristãos e os judeus,
Os mais fiéis e os incestuosos,
Os perdedores e os vitoriosos,
Muçulmanos, pagãos e os ateus.
Somos menos prováveis que diversos.
Os amaldiçoados e os bentos,
Nunca mais genitores que rebentos,
Uns mais de prosa, outros mais de versos.
Somos a esperança consumida,
A aventura encrustada em nosso osso,
Os atolados ao fundo do posso,
E os que amam mais que a própria vida.
Somos o “X” de todas as questões,
Nós somos as explicações solenes,
O “Y” cravado em vossos genes,
Navegamos o mar das ilusões.
Somos questionadores e os crentes,
Relapsos ou super protetores.
Iletrados, incultos e doutores.
E um dos porquês de sermos diferentes.
Semeamos o ódio e o amor,
Deixamos rastos por onde passamos,
E ao solo dolorido desses ramos,
É onde vinga o milagre da flor.
Somos o totem que a todos protege,
Esculturado em blocos de machismo,
Atados às amarras do achismo,
Sem crer na liberdade que nos rege.
Mantemo-nos num ciclo incessante,
De dor, escravidão e desatino,
E a sociedade apoia o seu destino,
Aos passos inseguros de um infante.
Todos os pais passados foram meus,
Foram-se pra que outro se tornasse,
Para que a prole, enfim, aproveitasse,
O mais maravilhoso dos liceus.
Que mirem nossos passos infelizes,
E o dissabor de nossos descaminhos,
Pra colorir com novas mil matizes,
Esse presente de não ir sozinhos.
E apesar dos tropeços lamentáveis,
Desejo desejar a nossos filhos,
Que, quer sigam ou não por nossos trilhos,
Se criem livres e autossustentáveis.
Não sendo a vida autoexplicativa,
Em se notando o frágil da certeza,
Apelo pela busca da clareza,
E como pai, só peço que ele viva!
Pela não utopia de haver paz,
Que eu veja uma luz livre em nossas filhas,
Que brilhem quais faróis em belas ilhas,
Aonde aportem os mais belos pais.
Que rumem pelo amor e amizade,
E tolerem que somos só humanos,
Cientes, sem saudades dos enganos,
Os novos pais da nova humanidade.
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