Psiquiatra diz que morte como a de Eduardo Coutinho, por esquizofrênico, é caso raro

O psiquiatra Jorge Jaber disse hoje (3) que, dificilmente, um esquizofrênico se manifesta da maneira como agiu Daniel Coutinho, que matou a facadas o próprio pai, o cineasta Eduardo Coutinho, deixou gravemente ferida a própria mãe, Maria das Dores Coutinho, além dele mesmo, vítima das próprias facadas.

Coutinho, vítima do próprio filho

“É muito raro acontecer o que ocorreu agora. É mais comum a pessoa se suicidar. É preciso ressaltar que a medicação e o tratamento evoluíram muito nos últimos anos. E ele, sendo esquizofrênico, precisaria abandonar o tratamento, a medicação, para agir da forma como agiu”.

Membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria e especialista em dependência química e recuperação de viciados, Jaber acredita que o surto psicótico se deu, provavelmente, por abandono do tratamento. “Isto é muito comum: o paciente melhora e esquece que tem a doença, abandona o tratamento e aí fica sujeito ao surto. Em geralmente acometido de uma forte sensação de perseguição”.

Artigo publicado pelo Hospital Abert Eisntein intitulado Esquizofrenia: um dos Mistérios da Mente cita estudos publicados na revista Nature, que acompanhou cerca de 10 mil casos da doença, e que chegaram a um grande número de variações genéticas, que respondem por pelo menos um terço do risco de desenvolver a esquizofrenia.

Pesquisadores estimam que 1% da população mundial, cerca de 100 milhões de pessoas, sofram atualmente com a doença. No Brasil, a doença afeta mais de 2,5 milhões de pessoas que apresentam algum transtorno mental grave ligado à esquizofrenia e que, em algum momento, podem precisar de um hospital psiquiátrico.

O psiquiatra Jorge Jaber, diz que a esquizofrenia – embora possa ter início ainda na infância – em geral e com mais frequência se manifesta a partir da adolescência. “A idade limite em geral é até os 30 anos. É muito difícil a sua manifestação a partir desta idade. Isto significa que ele já tinha pelo menos dez anos de diagnóstico. E morando na zona sul da cidade e com boas condições sociais, certamente ele recebia algum tipo de tratamento”.

Na publicação do Hospital Albert Einstein, a psicóloga Fernanda Rocha de Freitas Vidal, do Núcleo de Medicina Psicossomática e da Unidade de Cuidados Avançados do Einstein, avalia que as alterações que as pessoas com esquizofrenia apresentam, em um primeiro momento, são o isolamento e a dificuldade de sociabilização, além de medos exagerados, excesso de preocupações, muito diferentes daquelas que a pessoa costumava ter.

Segundo a publicação do Hospital Albert Einstein, uma vez instaladas, as distorções do pensamento e da percepção da realidade levam a caminhos tortuosos. “Há quem entre em surtos psicóticos – delírios, alucinações visuais, auditivas, olfativas e táteis –, enquanto outros ficam catatônicos ou desenvolvem estados de afeto inadequados à situação, podendo chegar ao que os especialistas chamam de embotamento afetivo [perda de todas as reações emocionais]”.

“Ambas as situações não só desestruturam os pacientes e quem convive com eles, como podem resultar em atos insensatos e até violentos contra si próprios e outras pessoas. Por isso, é essencial que os familiares entendam o distúrbio e suas limitações e se preparem para questões angustiantes a enfrentar: como vai se desenvolver o quadro, a instabilidade do paciente, a remissão dos sintomas com o tratamento”, explica a psicóloga na publicação.

A publicação conclui que tanto o diagnóstico como o tratamento precoce são fundamentais para garantir a qualidade de vida ao paciente. “Um dos detonadores mais clássicos de quadros psicóticos é o uso de drogas, principalmente a maconha e estimulantes como a cocaína e as anfetaminas”.

Psiquiatra e pesquisadora do Instituto do Cérebro do Einstein e coordenadora do Programa de Atenção às Psicoses da Infância e Adolescência da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), Taís Moryiama, ressaltou o fato de que uma das pesquisas mais benfeitas nessa área mostra que “o uso de maconha pode aumentar o risco em até dez vezes se o indivíduo tiver genes que predispõem ao transtorno”.

O psiquiatra Jorge Jaber concorda com as considerações da psiquiatra Tais Moryiama. Segundo ele, a droga, e também o álcool, pode causar transtornos mentais, principalmente se o esquizofrênico tiver abandonado a medicação. “Mas se ministrada em uma dose razoável, a medicação impede que o surto se instaure, mesmo que o esquizofrênico esteja usando droga. O problema é que, geralmente, quando ele começa a usar a droga é porque ele já não tem a percepção da doença e parou de tomar a medicação”.

Jaber admitiu que um dos principais problemas que enfrenta hoje no tratamento de seus pacientes é o envolvimento das pessoas portadores de esquizofrenia com as drogas. O psiquiatra disse cuidar atualmente de cerca de 100 pessoas com doenças psiquiátricas. “Cerca de 30% delas adoeceram psiquiatricamente por causo do uso de drogas. Paciente psiquiátrico com frequência, por se sentir marginalizado, vai procurar a droga como forma de amenizar os seus problemas”, disse. (Agência Brasil)

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