Sete em cada dez pessoas ouvidas em Campinas apoiam o fim da escala 6×1, enquanto oito em cada dez são favoráveis à redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O apoio aos direitos trabalhistas também aparece de forma ampla: 97,2% consideram que eles devem ser garantidos a todos os trabalhadores.
Os dados fazem parte da pesquisa “Percepções sociais sobre trabalho, sindicalismo e direitos”, realizada em parceria com a Unicamp. O levantamento ouviu 1.412 pessoas no Centro de Campinas em julho de 2025, com nível de confiança de 95% e margem de erro de 3%.
A pesquisa mostra que, para 58,1% dos entrevistados, cabe ao Estado a principal responsabilidade pela garantia dos direitos trabalhistas. Outros 16,4% atribuem essa responsabilidade aos patrões, 13,1% aos sindicatos e 7,2% consideram que ela deve ser assumida pelos próprios trabalhadores.
O apoio a direitos específicos também é expressivo. A estabilidade no emprego para funcionários públicos é defendida por 71,4% dos participantes. Já 72,6% apoiam o fim da escala 6×1 e 80,3% concordam com a redução da jornada de 44 para 40 horas.
Sem carteira assinada, mas com direitos
Mas há uma aparente contradição: embora os direitos associados ao emprego formal tenham ampla aprovação, muitos entrevistados não demonstram interesse em trabalhar com carteira assinada. Entre os 300 participantes que não eram assalariados ou eram trabalhadores domésticos, 53,7% disseram que não gostariam de ter um emprego com carteira. Apenas 25,2% responderam que gostariam, enquanto 16,7% disseram que dependeria da proposta.
Para a professora Andréia Galvão, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e uma das autoras do estudo, os resultados não significam que essas pessoas rejeitem os direitos trabalhistas. “Não é porque tantas pessoas não querem trabalhar com carteira assinada que elas acham que os direitos não são importantes”, observa.
Segundo a pesquisadora, a preferência pelo trabalho por conta própria convive com a defesa dos direitos assegurados pelo emprego formal. Uma possível explicação está na própria qualidade das vagas disponíveis: 68,9% dos participantes recebiam até três salários mínimos quando responderam ao questionário, e os pesquisadores apontam ainda fatores como instabilidade, jornadas extensas e falta de perspectivas profissionais.
Quando perguntados sobre o que desejam para o futuro, 35,9% disseram que pretendem abrir o próprio negócio. Outros 25,4% querem se aposentar e 12,3% pretendem passar em um concurso público. Apenas 8,5% apontaram como desejo ter um bom emprego com carteira assinada.
Aposentadoria, um sonho distante
A aposentadoria também aparece cercada de incertezas. Para 21,1% dos entrevistados, é certo que não conseguirão se aposentar. Outros 46,6% acreditam que terão dificuldades para conseguir o benefício. Apenas 24,1% têm certeza de que conseguirão se aposentar.
O levantamento identificou ainda diferenças na percepção sobre o próprio trabalho. Embora a avaliação geral seja majoritariamente positiva, os participantes com maior escolaridade relatam mais pressão e controle, além de insatisfação com a remuneração e menor reconhecimento social. Trabalhadores das áreas de educação, saúde e segurança aparecem entre os mais descontentes com salários e condições de trabalho. Já os autônomos estão entre os que se dizem mais satisfeitos.
Apoio aos sindicados e às greves
A pesquisa também mediu a relação dos entrevistados com os sindicatos. Apesar de apenas 14,4% da amostra ser sindicalizada, 72,2% consideram os sindicatos importantes para a defesa dos direitos dos trabalhadores. Para 63%, eles contribuem para melhorar salários e condições de trabalho, enquanto 59,6% acreditam que têm papel na melhoria das condições de vida dos trabalhadores. A greve também encontra respaldo: 73,9% consideram legítima essa forma de mobilização.
A afirmação de que “sindicatos não deveriam existir” teve média de apenas 7,95% de adesão nas questões que avaliaram a rejeição ao sindicalismo. Além disso, 34% dos entrevistados disseram nunca ter tido oportunidade de se sindicalizar, o que indica, segundo a pesquisadora, uma oportunidade de aumentar a adesão.
O estudo foi desenvolvido pelos professores Andréia Galvão e José Dari Krein, ambos da Unicamp, em conjunto com as pesquisadoras Patrícia Trópia, Ana Paula Colombi, Ariella Araújo e Elaine Amorim, ligadas à Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reconfiguração do Trabalho (Remir). Estudantes do IFCH participaram da aplicação dos questionários.
A pesquisa terá uma segunda etapa, com a realização de grupos focais ainda em 2026. A intenção é aperfeiçoar os instrumentos usados e ampliar o levantamento para uma pesquisa nacional prevista para 2027. (Com informações de Liana Coll/Jornal da Unicamp)
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