(foto saulo cruz - ag senado)
A mentira usada pelo senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para inflar seu currículo é prática comum na extrema direita assim como a prática de atacar as universidades públicas. Essa contradição faz parte do viés extremista e mostra o tipo de seguidores que bolsonarismo atraiu nos últimos anos. O bolsonarismo carrega em si uma estrutura raivosa da frustração, da incapacidade que se transformou em revolta contra as pessoas de sucesso intelectual. Por isso, os ataques às universidades públicas, aos artistas, aos professores, aos educadores. Não por acaso, são disseminadores de mentiras sobre um dos maiores intelectuais da educação brasileira, Paulo Freire. Ao mesmo tempo que atacam a educação, buscam se legitimar com falsos títulos de universidades públicas.
A nova mentira de Flávio Bolsonaro pegou mal até mesmo entre políticos da direita. Flávio divulgou a informação falsa de que teria um título de pós-graduação em ciências políticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Mentir em currículos não é exatamente uma novidade para o campo da extrema direita. Em 2019, o então governador Wilson Witzel registrou na Plataforma Lattes que fazia doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF) com uma etapa de intercâmbio na Universidade Harvard. No mesmo ano, a então ministra Damares Alves afirmou ter concluído um mestrado que nunca fez. Em 2020, foi a vez do ministro da Educação de Jair Bolsonaro, Carlos Alberto Decotelli, inventar um título que teria sido obtido na Universidade de Rosário, na Argentina, e tentar cavar uma pós-graduação na Alemanha. Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação, foi apresentado inicialmente pelo governo como portador de título de doutor que não constava formalmente de forma legítima nas instituições apontadas. Até o juiz indicado pelo Bolsonaro mentiu no currículo. Kássio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu em seu currículo uma pós-graduação cujos registros foram contestados pela universidade espanhola citada, que esclareceu tratar-se apenas de um curso de curta duração como ouvinte. Todos os casos foram prontamente desmentidos pelas instituições citadas.
A informação sobre Flávio Bolsonaro estava publicada no site da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no perfil profissional do senador no LinkedIn e no site do Senado Federal. A própria universidade negou que o senador tenha sido aluno da instituição.
Em nota, a equipe de Flávio disse que as informações incorretas teriam sido “possivelmente extraídas de páginas como a Wikipedia” e informou ter solicitado a retificação.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), avalia que o episódio, além de constrangedor, mostra o conforto do candidato com a mentira. “É uma tentativa de falsidade ideológica e é algo grave, principalmente considerando o lugar ocupado, no caso dele, um presidenciável. Isso mostra o perfil que ele tem caso venha a ser eleito presidente”, afirma.
A especialista defende algum tipo de responsabilização. “Se eu, como acadêmica, faço isso, eu seria submetida ao rigor da lei. Essa métrica deveria valer para esse caso”, pontua. “Contudo, a gente sabe que vai ser minimizado, até porque a gente sabe que Flávio tem um público muito cativo”, observa.
Para Santana, as mentiras buscam mostrar competência para assumir funções públicas. “E são pessoas críticas, inclusive à formação, ao ensino e até à universidade pública”, ironiza. (Com informações do Brasil de Fato)
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