Comédia farsesca ‘Entre a Cruz e os Canibais’ revê o mito dos bandeirantes e as origens de São Paulo

(foto heloisa bortz – divulgação)

Em São Paulo – O diretor e dramaturgo Marcos Damigo volta a se debruçar sobre a história do Brasil em “Entre a Cruz e os Canibais”, seu quinto espetáculo dedicado a investigar, com humor crítico, as origens de São Paulo. A montagem estreia na próxima quinta-feira, dia 22 de janeiro, no Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo, na semana em que a cidade completa 472 anos, e integra a pesquisa continuada do artista em provocar novos olhares sobre o passado, desmontando mitos consolidados, como o dos “heróis bandeirantes”. Nos dias 22, 23, 24 e 25, em comemoração ao aniversário da capital paulista, o espetáculo será gratuito.

Ambientada em 1599, a peça acompanha quatro personagens — o juiz, o governador-geral, o vereador e procurador — em meio ao cotidiano tenso da antiga Vila de São Paulo de Piratininga, então a única ocupação europeia fora da faixa litorânea, isolada pela Serra do Mar.

A chegada do governador-geral Dom Francisco de Souza à pequena vila desencadeia uma sucessão de conflitos: moradores insatisfeitos com o autoritarismo do juiz, o sequestro de tupis aliados cometido pelo vereador, o temor de um ataque indígena e a expectativa do procurador de que a lei contra a escravização dos povos originários seja finalmente respeitada.

O enredo expõe, com ironia, o descompasso entre o projeto colonial e a realidade local, revelando o momento em que São Paulo ensaia seus primeiros passos rumo ao “progresso” justamente à custa da exploração da mão de obra indígena.

Para Damigo, é aí que se instala o paradoxo central da narrativa paulista, mais tarde encoberto pela construção do mito do bandeirante como herói nacional — um processo que se fortaleceu no século XIX, com a ascensão econômica do café e a criação de uma identidade ligada à ideia de trabalho e desenvolvimento.

“Encontramos no humor a melhor estratégia para questionar essa ideia de que os bandeirantes foram heróis. Por isso, criamos o que eu chamo de comédia de escárnio, que dialoga com uma tradição de comédias populares desde a Antiguidade, passando por grandes autores brasileiros também, como Arthur Azevedo e Martins Pena. Assim, conseguimos colocar em destaque o grotesco escondido sob o verniz de modernidade que mascara até hoje interesses abjetos”, comenta Damigo.

A trilha original de Adriano Salhab, o figurino de Marichilene Artisevskis — que incorpora elementos do modernismo e da Tropicália —, e o cenário de lonas pintadas por Jonato e Ever reforçam a relação entre passado e presente. A criação audiovisual de Richard Wera Mirim, cineasta guarani da Terra Indígena Jaraguá, amplia esse diálogo.

No elenco estão José Rubens Chachá (juiz), Fábio Espósito (vereador), Daniel Costa (procurador) e Thiago Claro França (governador-geral), atores com trajetórias marcantes no teatro brasileiro. A dramaturgia contou com consultorias de Luís Alberto de Abreu e do historiador Paulo Rezzutti, além do apoio de Rodrigo Bonciani na montagem. (Com informações de divulgação)

Serviço

Data: 22 de janeiro a 15 de fevereiro de 2026
Horário: quinta a sábado às 20h e domingos às 19h
Local: Teatro Arthur Azevedo
Endereço: Av. Paes de Barros, 955, Alto da Mooca, São Paulo-SP
Ingressos: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia), à venda na bilheteria, aberta uma hora antes de cada sessão, e on-line pela plataforma Sympla; gratuito nos dias 22, 23, 24 e 25/1
Duração: 85 minutos
Classificação: 12 anos
Acessibilidade: Libras e audiodescrição em 23/1

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