Entre silêncios e ambiguidades, de Tarsila a Ailton Krenak: Theatro Municipal relê Semana de 22 em ‘Contramemória’

Em São Paulo – O Theatro Municipal de São Paulo, que foi palco da Semana de Arte Moderna há 100 anos, realiza, pela primeira vez desde 1922, uma exposição de grande dimensão: Contramemória, com curadoria de Jaime Lauriano, Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Meira Monteiro. A abertura acontece dia 18 de abril, com visitas guiadas pelos curadores, e o acesso é gratuito.

(Imagem: Divulgação – Theatro Municipal de São Paulo)

O intuito da exposição é reler e traduzir criticamente a Semana de 22 e o seu ambiente cultural e político. Para isso, serão expostas tanto obras contemporâneas quanto as do Acervo Modernista do Centro Cultural São Paulo (CCSP). O choque produzido entre essas duas vertentes desnuda os silêncios e as ambiguidades presentes na hoje canônica Semana de Arte Moderna, agora revista por novos olhares, histórias e protagonismos, muito mais plurais. As ideias e visões de uma maioria masculina, branca e abastada do passado, em contraste com artistas negros, indígenas, trans, mulheres e de várias gerações.

Serão exibidas obras de artistas contemporâneos como Ailton Krenak, Denilson Baniwa, Daiara Tukano, O Bastardo, Adriana Varejão, Raphael Escobar, Bertone Balduino, Ana Elisa Egreja, Lídia Lisbôa, Mídia Ninja e Val Souza. Essas obras estarão lado a lado com os quadros de Anita Malfatti. Alfredo Volpi, Tarsila do Amaral, Emiliano Di Cavalcanti e Flávio de Carvalho, entre outros.

“A exposição traz para o Theatro Municipal, símbolo da Semana de 22, quem ficou de fora: as mulheres, os negros, os indígenas”, afirma a secretária Aline Torres. “Estamos ressignificando o espaço, o conceito de modernismo, e introduzindo e valorizando novos protagonistas, artistas que não estariam na Semana de 22 há um século”.

“Em 1922, o Theatro Municipal abriu, pela primeira vez, suas portas para uma exposição de arte. Passados 100 anos, a mostra Contramemória ocupa novamente o edifício. Por isso o debate e fricção com obras produzidas naquele contexto é direto, bem como a releitura depois de um século”, afirma Lilia Moritz Schwarcz. “Ao lado dos trabalhos modernistas estão agora obras de artistas contemporâneos, sobretudo negros, mulheres e indígenas. O resultado é uma invasão decolonial.”

“Uma das inspirações da exposição é a releitura da Semana de Arte Moderna proposta por Emicida em AmarElo, filme em que o Theatro Municipal figura como espaço de uma memória que se irradia do centro de São Paulo a suas periferias, e de lá ao resto do país e ao mundo todo”, comenta Pedro Meira Monteiro. “Contramemória pretende recuperar os caminhos de uma memória rota, de modo a recolocar, no centro, o que ficou fora dele.”

“Em Contramemória retiramos a “aura revolucionária” da famigerada “Semana de Arte Moderna de 1922”, reposicionando, criticamente, a importância da exposição que aconteceu em São Paulo”, afirma Jaime Lauriano. “Com isso, pretendemos descentralizar os debates em torno dos modernismos brasileiros, contribuindo, assim, com os necessários tensionamentos provocados pela produção de artistas negres, indígenas e de gêneros contra hegemônicos.”

A Exposição

Logo na entrada, a exposição já ressignifica uma característica arquitetônica do espaço, o uso de “figuras de convite”. O hábito europeu de representar nobres na entrada era uma maneira de ressaltar a suntuosidade do espaço. O edifício foi projetado quase como uma réplica de teatros europeus, trazendo esculturas de divindades gregas e, no teto, pinturas representando camponeses idealizados. Em Contramemória, tudo isso é questionado. São duas releituras, no salão central, da famosa foto de 1924 que reúne os integrantes masculinos da Semana: O Bastardo apresenta uma releitura do documento, pautada na imagem daqueles que “não foram convidados” para a festa, sobretudo negros e indígenas; já Daniel Lannes revê a imagem com cores fortes e borra os contornos de seus integrantes.

Um dos eixos da exposição é o questionamento da figura romantizada do bandeirante e a desconstrução de sua imagem de “o primeiro empreendedor” da cidade. Diversas obras questionam essa figura que até hoje é exaltada nos monumentos da capital, como as esculturas de Jaime Laureano.

Outro eixo emblemático da exposição é o dos retratos dos modernistas. Além dos produzidos na época, esse núcleo apresenta releituras contemporâneas desses artistas, e também de outros modernismos, para além das elites de São Paulo.

Contramemória

De 18 de abril a 5 de junho

Abertura: 18 de abril, com visitas guiadas: 10h30; 12h30; 15h

As visitas mediadas acontecem por meio de agendamento no site do Theatro Municipal

Horário: terça-feira a sexta-feira, 11h às 17h e sábado e domingo, 10h às 15h

Local: Theatro Municipal – Salão Nobre | Praça Ramos de Azevedo s/nº | Centro

Ingressos: retirada dos ingressos gratuitos pelo site. Limite de 2 ingressos por pessoa

Gratuito

Mais informações AQUI.

(Carta Campinas com informações de divulgação)

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