Peça-filme ‘A Idade da peste’ expõe o racismo como um flagelo de brancos em uma reflexão que passa por um debate sobre o mal

Em SP e online – O que aconteceria se uma mulher branca de classe média alta realmente se descobrisse branca? A que custo isso se daria, e qual o discurso possível dessa constatação? Foi a partir dessa provocação que o dramaturgo Reni Adriano e a atriz Cácia Goulart conceberam o solo em formato audiovisual A idade da peste, que fica em cartaz até 30 de dezembro com exibições presenciais na Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, nº 363, Bom Retiro, São Paulo, SP) e on-line pelos canais das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo e também no da atriz Cácia Goulart.

Em cena, Senhora C. assiste ao assassinato do filho da empregada, encurralado pela polícia, dentro da sua casa de classe média alta. O episódio desencadeia um profundo exame de consciência em que os desejos inconfessados da branquitude emergem como um marcador racial aterrorizante, questionando a própria possibilidade de justiça em um mundo feito à imagem e semelhança dos brancos.

Cácia Goulart em “A Idade da Peste” (Foto: Nelson Kao)

Mas engana-se quem espera da atuação de Cácia Goulart uma personagem branca se autoelogiando como “antirracista” ou performando mea culpa e comiseração. “Senhora C. não tem esse complexo de Princesa Isabel; não pretende ser reconhecida como a ‘branca redentora’ da causa. Pelo contrário: ela é consciente da infâmia do lugar racial que ocupa, sabe que esse lugar é indefensável”, reflete Cácia, que também assina a direção da peça. Para ela, o risco da abordagem pelo viés escolhido seria a tentação de redimir a personagem, ou cobri-la de elogios por sua consciência racial. “Mas a desgraça dela é saber que não basta ter consciência: ela está, como branca, submersa na indignidade, uma vez que reconhece seu lugar na branquitude, mas é incapaz de desocupar esse lugar privilegiado”, conclui.

Para o dramaturgo Reni Adriano, esse assunto costuma ser violentamente rechaçado por pessoas brancas, porque instintivamente reconhecem que subjaz a esse tema-tabu uma dose dolorosa de vergonha e infâmia. “Mas o status da branquitude se perpetua e se atualiza justamente nesse silenciamento”, pondera. Além disso, o autor, que é negro, ironiza que escrever para uma atriz branca funcionaria como uma espécie de mascaramento para que brancos possam ouvi-lo de boa vontade. “O fato de sermos um país em que negros não têm um dia sequer de descanso só é possível ao preço de que os brancos tenham uma dignidade muito frágil. Eu quero questionar essa dignidade frouxa dos brancos. Debater racismo com negros é fácil; o que eu quero é racializar os brancos em cena e situá-los no lugar de suas responsabilidades”, diz.

Escrita por um dramaturgo negro, portanto, para atuação de uma atriz branca, a peça mobiliza e tensiona os marcadores identitários raciais de modo a evidenciar que, antes de ser um “problema de negros”, o racismo é um flagelo de brancos. O exercício de franqueza de uma mulher branca sobre a perversão de seu próprio status identitário torna A idade da peste uma assombrosa reflexão em que pensar o racismo é um debate sobre o mal.

E para aprofundar o debate na urgência exigida pelo tema, a estreia conta com quatro convidados especiais. A exibição presencial do dia 17 de dezembro será seguida de uma conversa com o poeta e dramaturgo Rudinei Borges e o jornalista e crítico Valmir Santos, do Teatrojornal. Já a exibição on-line do dia 20 de dezembro contará com as apreciações do escritor e dramaturgo Allan da Rosa e da jornalista e colunista do The Intercept Brasil Fabiana Moraes.

O projeto foi contemplado pelo edital ProAC Expresso LAB 47/2020

SINOPSE

Uma mulher branca assiste ao assassinato do filho da empregada, acossado pela polícia, dentro da sua casa de classe média alta. O episódio desencadeia um profundo exame de consciência em que os desejos inconfessados da branquitude emergem como um marcador racial aterrorizante, questionando a própria possibilidade de justiça em um mundo feito à imagem e semelhança dos brancos. Escrito por um dramaturgo negro para atuação de uma atriz branca, a peça mobiliza e tensiona os marcadores identitários raciais de modo a evidenciar que, antes de ser um “problema de negros”, o racismo é um flagelo de brancos. O exercício de franqueza de uma mulher branca sobre a perversão de seu próprio status identitário torna A idade da peste uma assombrosa reflexão em que pensar o racismo é um debate sobre o mal.

FICHA TÉCNICA

Texto: Reni Adriano

Direção e Atuação: Cácia Goulart

Voz off (Senhor R.): Samuel de Assis

Assistente de Direção: Edmilson Cordeiro

Preparadora de ator e Colaboradora: Inês Aranha

Direção de arte: Cácia Goulart

Produção musical – Sound design: Marcelo Pellegrini

Design Banheira: Joaquim Goulart

Captação de imagem e Direção de fotografia: Nelson Kao

Edição: FVFilmes

Direção de Produção: Cácia Goulart

Assistente de Produção/Gravação: Edmilson Cordeiro

Realização: NÚCLEO CAIXA PRETA da Cooperativa Paulista de Teatro

Peça – filme A idade da peste

Duração: 75 minutos | Classificação etária: 16 anos | Gratuito

Exibições presenciais:

Cineclube da Oficina Cultural Oswald de Andrade

Endereço: Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo/SP

• Dia 17 de dezembro, às 19h – seguida de debate com os convidados Rudinei Borges e Valmir Santos

• Dia 18 de dezembro, às 18h.

30 lugares (Retirada dos ingressos com 01 hora de antecedência)

(Entrada permitida somente com o uso de máscara cobrindo nariz e boca. Durante a permanência no local, siga os protocolos sanitários para prevenção da Covid-19)

Exibições On-line – PARTE I

Onde: Youtube das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo

Dia 20 de dezembro, às 20h – seguida de debate com os convidados Allan da Rosa e Fabiana Moraes

Dias 21 e 22 de dezembro, às 20h

Exibições On-line – PARTE II

Onde: Youtube Cacia Goulart

De 23 a 30 de dezembro de 2021, às 16h e às 20h.

(Carta Campinas com informações de divulgação)

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