Pesquisa da Unicamp mostra quão estúpida foi ideia de ‘imunidade de rebanho’ contra a Covid

Um estudo de pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de Campinas (Unicamp) – universidade pública de São Paulo – que simulou o processo de replicação do vírus para compreender suas variações, expõe quão estúpida foi a ideia da “imunidade de rebanho” defendida pelo governo Bolsonaro. O governo propôs permitir a disseminação do vírus como forma de “enfrentamento”. A ideia, sem qualquer base científica, foi defendida pelo próprio Bolsonaro e por seus apoiadores e combatida por governadores e prefeitos. Mesmo sendo combatida por governadores, a estratégia do governo federal levou o Brasil a ser um dos países com o maior número de mortos por Covid-19 e atingir até o momento 570 mil mortos.

(foto: niad – fp)

Os pesquisadores da Unicamp, Vitor Marquioni e Marcus Aguiar, mostraram que quanto mais o novo coronavírus circula, maior a chance de ocorrer uma mutação genética e o aparecimento de novas variantes que podem prolongar e agravar a pandemia de covid-19.

Os resultados foram publicados na revista científica Plos One. No artigo, os autores ressaltam a importância da vacinação como estratégia para diminuir o surgimento de novas cepas. Segundo eles, as populações que não estão sendo vacinadas e os grupos sociais que se recusam a receber a vacina favorecem o aparecimento de variantes.

Os autores fazem ainda um alerta: se o problema não for resolvido urgentemente, a pandemia pode ter um novo pico em escala global.

O modelo desenvolvido pelos físicos é baseado em quatro variáveis: as pessoas classificadas como suscetíveis, que podem ser infectadas pelo vírus; as expostas, que estão infectadas mas não infectam outras; as infectadas que podem transmitir a doença para outras; e as recuperadas que não podem mais ser infectadas. O método, conhecido na epidemiologia pela sigla em inglês SEIR, é uma simplificação do cenário para que as possibilidades de mutação e surgimento de variantes do coronavírus possam ser medidas.

Além disso, uma parte do modelo tenta acompanhar as possibilidades de variação da cadeia de RNA, material genético do vírus. “Nós comparamos os nossos resultados com a inferida evolução genética da SARS-CoV-2 no começo da epidemia na China e encontramos uma boa compatibilidade com a solução analítica do nosso modelo”, destacam os pesquisadores no artigo.

Reinfecções
Os cientistas lembram no trabalho que o surgimento de novas cepas a partir das mutações do vírus está ligado aos casos de pessoas que são infectadas mais de uma vez. “Entender os mecanismos de mutação e variabilidade dos vírus é da maior importância para antecipar desafios futuros, como o surgimento de outras cepas infecciosas ou a perda de imunidade”, ressalta o artigo.

Foram analisadas as mudanças genéticas dos vírus no andamento da pandemia em localidades diferentes. Assim, o modelo mostrou que quando há pouca conexão entre regiões, a diferença genética entre os vírus presentes nessas áreas tende a ser maior. Desse modo, “é esperado um aumento no risco de reinfecção nos contatos entre viajantes em territórios distantes”, enfatizam os autores nas conclusões do estudo.

O que mostra, de acordo com os pesquisadores, que a pandemia, com espalhamento da doença por diversas partes do mundo, aumenta muito as chances de variantes que sejam capazes de infectar mais de uma vez a mesma pessoa do que em uma simples epidemia, localizada em um determinado território. O trabalho foi financiado com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). (Carta Campinas com texto da Agência Brasil)

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