Conceição dos Bugres no Masp: expressionismo contido

(foto masp – div)

.Por Gabriel San Martin.

No dia 9 de abril de 2021, o Masp abrirá a exposição “Conceição dos Bugres: tudo é da natureza do mundo”, com duração até o dia 30 de janeiro de 2022. Passados 37 anos da morte da artista, a sua relevância na arte popular e na escultura brasileira se mostra inegável. Tendo recebido poucas exposições individuais em vida, o Masp segue a sua agenda da série “Histórias Brasileiras” promovendo exposições de importantes nomes femininos das artes.

Conhecida como “Conceição dos Bugres”, a artista Conceição Freitas da Silva nasce, em 1914, numa tribo indígena no município de Povinho Santiago, no Rio Grande do Sul. Aos seis anos de idade, Conceição e a sua família sofrem perseguição em vista da acentuada intolerância indígena que abrangia a região sul do país naquele momento. Por isso, ainda criança, migra para o Centro-Oeste com a família, na cidade de Ponta Porâ, no Mato Grosso do Sul. Mais tarde, em 1957, parte para Campo Grande. Com efeito, toda a obra de Conceição é produzida no Centro-Oeste, de modo que a artista chega a se tornar uma figura emblemática da cena artística do Mato Grosso do Sul.

Importante lembrar que toda a obra de Conceição é fundada em um padrão. Com esculturas denominadas por ela de “bugres”, o paradigma da sua produção é fundado no uso constante de formas cilíndricas em que são representadas figuras humanas com traços indígenas. O rosto e as emoções estampadas no rosto das figuras são sutilmente modificados de um trabalho para o outro. O nome “bugre”, dado pela artista a si mesma e ao seu trabalho, consiste no modo como os indígenas do Sul do Brasil eram chamados pejorativamente por serem considerados, pelos europeus, não cristãos e selváticos. Só isso já é suficiente para notar a pretensão por uma dimensão política que reside na obra de Conceição. Posto que a figura do índio é um ponto central dos seus “bugres”, fica difícil desvincular o trabalho da artista de toda a sua memória de violência e perseguição sofrida na infância.

Além disso, apesar de haver algumas esculturas caracterizadas por expressões mais leves e amansadas, os bugres de Conceição são, em sua grande maioria, fundados em expressões graves. Do mesmo modo como o expressionista Lasar Segall representa figuras de feições melancólicas, apáticas e rodeadas por um aparente sentimento de desesperança em seus desenhos, os indígenas das esculturas de Conceição não parecem lá muito diferentes disso. Com olhos integralmente pintados de preto, parece existir a expressão de um certo vazio na feição dessas personagens. O que a princípio configura uma escultura sutil e delicada, torna-se algo até um pouco tenebroso depois de observadas por muito tempo. Mesmo no caso das esculturas em que haja bebês ou crianças, os olhos das personagens também não mostram brilho nenhum: são absolutamente escuros. Em vários trabalhos, os rostos das figuras se assemelham quase a caveiras, como se a morte não fosse lá algo muito distante – se há algo distante, é o sentimento de esperança. Tudo que resta é um vazio, uma angústia.

Não obstante, diversas manchas aparecem ao redor dos corpos de boa parcela das esculturas da artista. Essas manchas lembram ferimentos e sujeira, dão a impressão de algo inacabado, as figuras parecem querer desatar. As personagens se encontram abatidas não só psicologicamente, mas também fisicamente. Criadas através de um processo bruto, de rápidos golpes de facão e machadinha através dos quais Conceição dá forma às esculturas, as figuras parecem exibir um corpo proveniente de uma memória dura e brutal.

Repletas de arquétipos do artesanato e acompanhadas por figuras de traços expressionistas configuradas numa forma simplificada, quase naif, evidente que Conceição dos Bugres deva ser pensada enquanto uma artista bastante atual. Diante de um aumento de 2019 para 2020 da violência contra os povos indígenas, é triste lembrar que os bugres de Conceição não se apresentam apenas enquanto memórias de um passado distante.

Gabriel San Martin – É estudante da graduação em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador em estética e teoria da arte.

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