Bolsonaro pode ser descartado?

.Por Wagner Romão.

O laranjal de Bebianno exposto pela Folha de S. Paulo há alguns dias produziu muito mais que sua queda. Mostrou aos militares o quão despreparado e inconsequente é Bolsonaro e sua famiglia.

(foto fabio pozzebom – ag brasil)

Em tempos de redes sociais e de privacidade aberta, é muito comum ver pessoas que assumem cargos públicos não perceberem que assumiram também o peso de certa liturgia destes cargos e, mais que isso, de que posts inadequados fatalmente serão utilizados contra elas. Há de tudo, desde mais ingênuos que não conseguem separar vida privada da vida pública – e dão de bandeja o mapa de suas fraquezas aos seus inimigos políticos – até debilóides anti-humanistas, como a desembargadora socialite do Rio que puerilmente ataca líderes de esquerda nas redes sociais como se estivesse no sábado à tarde com as amigas no Starbucks do Barra Shopping.

O que faz a famiglia Bolsonaro, entretanto, é diferente disso. Há também a mesma displicência travestida de “sinceridade” a que aludi acima, isso que supostamente diferencia bolsonaristas dos outros políticos e que lhes permite “falar o que pensam”, serem “transparentes” e desnudarem sua ignorância sobre temas centrais para o país. Um brasileiro igualzinho a você, com muito orgulho, com muito amor.

Mas, não é só disso que se trata. O modo como usam as redes sociais serve para manterem aquecida a guerra cultural contra a esquerda e os governos anteriores. Expor o inimigo ao linchamento público, maldizer, sugerir versões, mentir, lançar factóides que são consumidos sem crítica pelos crentes que Bolsonaro é diferente “de tudo isso que está aí”. Talvez o caso mais escabroso disso seja a tentativa de dizer que Jean Wyllys teria saído do país por envolvimento no episódio da facada de Juiz de Fora.

Ocorre que, em um governo, o que mais se produz são inimigos internos que se digladiam pelo poder. E Carlos Bolsonaro e assemelhados passam a promover a luta interna. Não mais nos bastidores como se fazia antigamente, mas à luz da tela dos smartphones, pelo Twitter.

Os verdadeiros líderes são hábeis em dissipar fracionamentos em suas bases. Sua grande virtude é apaziguar animosidades, desligar a fervura, reunir os diferentes e conciliar interesses contraditórios. Lula era mestre nisso: fazer a unidade em torno de objetivos maiores.

Bolsonaro não é e nunca será assim. É um líder carismático e voluntarista, mas que nunca liderou de verdade. Amealhou seguidores por falar o que eles pensam e por agir de maneira intempestiva, sem considerar consequências e sem pudores. Construiu sua carreira política sobre este alicerce. Personifica o tipo de atitude que está em alta na juventude youtubber. Convencer, construir pacientemente acordos é muuuuito chato e é visto como politicagem para uma geração criada na imediaticidade das mídias sociais. E esse vírus pegou também em quem nunca teve paciência para a política ou se decepcionou com os líderes políticos de velha cepa.

Ocorre que um líder carismático é bom para ganhar eleições, mas tem dificuldade de governar, tarefa em que os talentos que descrevi acima são essenciais. Bolsonaro atua na base da maledicência e desconfia da própria sombra.

O outrora escudeiro Bebianno caiu em desgraça por sede desmedida de poder.

As campanhas eleitorais ganharam muito em transparência nos últimos pleitos. 2018 foi a primeira vez em que o financiamento de campanha no caixa 1 foi totalmente digitalizado e controlado pelos TREs (afora o caixa 2 do financiamento empresarial do WhatsApp, mas este é outro tema). Ficou muito mais fácil descobrir as trambicagens e maracutaias. Além disso, a obrigatoriedade de transferência de recursos para as candidaturas de mulheres – em um ambiente grotescamente machista – criou uma regra prestes a ser desrespeitada pela sanha de poder dos bolsonaristas (e de outros partidos). Bebianno liderou a montagem dos esquemas, meteu a mão na sujeira e abriu um flanco.

Mas, a queda de Bebianno se deu muito mais por ser ele o líder burocrático de uma farsa política. Fosse um partido à vera, que jogasse junto, talvez o PSL se unificasse na defesa de seu ex-presidente. Porém o PSL, como sabemos, é um catadão de personalidades regionais de Youtube e de policiais, militares, bombeiros muito machos que se tornaram políticos de primeira viagem. E aí, não tem ordem unida. É o caos.

Penso que é isso que amedronta os militares que, avalizados por Villas Boas – esse sim que reúne diversas características de ampla liderança – toparam fazer parte deste jogo de altíssimo risco que é o governo Bolsonaro. As Forças Armadas realizaram, por outras vias, o que aquela meia dúzia de loucos de 2015 pediram: uma intervenção militar constitucional, ocupando mais cargos e setores estratégicos do Estado do que até mesmo no regime político de 1964.

Pau que nasce torto, morre torto.

Muito difícil que Bolsonaro e famiglia mudem sua forma de atuar. O poder é inebriante, muito mais para quem já nasceu bêbado. Na real, os militares já tomaram o poder. A chave do que ocorrerá nos próximos meses está na seguinte questão: Bolsonaro pode ser descartado? Penso ainda ser cedo para mudanças bruscas. Mas, não tenho dúvidas que é essa a questão que sobrevoa o Planalto nestes dias.

Wagner Romão, professor de ciência política da Universidade Estadual de Campinas e presidente da Associação de Docentes da Unicamp.

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