Quando o silêncio das instituições fala mais alto

.Por Denise Argemi.

Viver em um país cujo parlamentar é obrigado a renunciar ao próprio mandato, diz muito sobre que Brasil está surgindo. E saber que pessoas ligadas a milicianos assassinos, inclusive assassinos da vereadora Marielle Franco e da juíza Patrícia Acioli, que enaltecem torturadores estão se regozijando com isso, nos embrulha o estômago e nos faz ter vergonha de ser brasileiros. Brasileiros não são assassinos nem torturadores!

(foto simone ramella)

A democracia está escoando pelo ralo da nossa história todos os dias e muitas pessoas continuam a insistir em uma linguagem binária de amor e ódio, de partidarismo, de “sem ideologia” e a repetir frases vazias de significado, mas repletas de fúria, preconceito, intolerância e incitação à violência.

Até quando vamos ler sobre restrição de direitos e fazer de conta que nada está acontecendo? Não estamos querendo ver? Não acreditamos que serão capazes de chegar tão longe? Por favor, não sejamos tão inocentes e tão coniventes.

Onde restará a pluralidade de ideias se o nosso parlamento se esvaziar por causa das ameaças dos tais “cidadãos de bem” contra gays, negros e mulheres? Sendo esta a população a ser calada e/ou exterminada, quem falará por eles? Quem falará por nós?

Já lemos e ouvimos que bastava um cabo e um jipe para fechar o STF? Sim. 
Já lemos e ouvimos que colocar 100 mil pessoas na prisão é fácil? Sim.
Já ouvimos outras ameaças? Sim, quase todos os dias.

E por que colocariam 100 mil pessoas ou mais na prisão? Simplesmente porque querem uma vida melhor para todos os brasileiros, sem distinção e sem exceção? O que há de tão perigoso e espetacular em as pessoas conviverem de modo pacífico respeitando a diversidade e as escolhas do outro?

(foto rodrigo veloso – jornalistas livres)

Infelizmente, em nome do combate a corrupção, estamos assistindo à construção paulatina de uma armadilha para todos os brasileiros, dos mais variados matizes. Não se enganem “os cidadãos de bem” provavelmente serão os próximos da fila caso divirjam de algo que contrarie os interesses vigentes. O Estado de Exceção que está se instalando no país é evidente. Dia à dia, mais direitos estão sendo suprimidos e uma legislação ditatorial e vertical está tragando todos nós.

Primo Levi, o escritor e partigiano antifascista torinese que sobreviveu a Auschwitz, quando perguntado: “Come nascono i lager? Respondeu: Facendo finta di nulla”. Ao que parece, a maioria de nós acha que nada está acontecendo, que estamos vivendo na normalidade. Não senhoras e senhores, não estamos vivendo dias normais.

O nosso silêncio é quase um reflexo ao inaudito, ao inusitado cotidiano a que estamos nos habituando. Cada dia mais surpresos e, ao mesmo tempo, mais apáticos. Mas as manifestações homofóbicas, racistas e machistas que provêm do próprio Estado estão a legitimar a impunidade de quem ameaça à liberdade de expressão e à vida, comodamente no anonimato. Nem tanto no anonimato, se pensarmos bem. E isso é um fato.

Covarde não é o parlamentar Jean Wyllys que deixa o Brasil, covarde é o preconceito, a intolerância e o medo que querem infundir nas pessoas.

Einsten já ensinava a seu alunos que “instrução não significa decorar informações. Mas, treinar a mente para pensar”.

Pensemos!

Denise Argemi é advogada e Especialista em Direito Internacional Público, Privado e da Integração pela UFRGS

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