Governos do PT foram de capitalismo puro, embora um pouco mais civilizado

A perigosa ignorância fabricada da direita

.Por Sandro Ari Andrade de Miranda.

Obama comunista? Brasil socialista? A pequena ilha de Cuba ameaçando a maior potência militar do Planeta? Venezuela invadir o Brasil pela Amazônia? Tais comentários são tão absurdos que não sobrevivem a qualquer análise mais séria das informações. Mas por que elas existem?

(foto roosewelt pinheiro – ebc)

A fala recente do Presidente empossado Jair Bolsonaro (PSL/RJ), afirmando que “o Brasil nunca mais será um país socialista” é sabidamente uma mentira histórica. Assim como Obama nunca foi um comunista, o próprio Partido dos Trabalhadores sempre executou políticas próximas à da social democracia.

Em termos reais, o Governo estadunidense de Barack Obama seguiu uma linha política social-liberal, ao estilo da terceira via europeia da década de 1990. O programa de seguro-saúde defendido como modelo universal pelo ex-presidente norte-americano, encontrou fortes resistências dentro de um parlamento conservador e acabou sendo implementado de forma mitigada. Se comparado aos modelos públicos universais do Reino Unido, França, Alemanha e países nórdicos, não é nada.

Já o governo petista, no Brasil, com a ressalva de algumas políticas identitárias, esteve longe até das sociais-democracias europeias clássicas, como a Sueca e a Dinamarquesa, por exemplo. O que nós observamos foi a execução de um modelo “desenvolmentista-neokeynesiano”, com forte preocupação no investimento público na infraestrutura, na expansão dos serviços, elevação dos patamares educacionais (este o segmento que mais se aproximou de modelos europeus), tendo o consumo interno e a estabilidade monetária como balanças de controle.

Ou seja, capitalismo no seu sentido puro, embora muito mais civilizado e inclusivo do que a tragédia imposta pelo receituário neoliberal de Michel Temer (MDB/SP).

A verdade é que o discurso de ignorância radicalizada da extrema-direita esconde dois grandes pontos chaves da sua estratégia: impor políticas agressivas e violentas nos campos econômico e de segurança e esconder o seu despreparo técnico para enfrentar a complexidade de um mundo não mais dividido pela bipolaridade leste-oeste das décadas de 1960-1970.

A globalização, tão criticada pelo Chanceler Ernesto Araújo, é tão capitalista quanto o dólar e um big-mac, mas a disputa de mercados no mundo atual exige conhecimento, estratégia e maleabilidade que são impossíveis para um obscuro diplomata que passou anos escondido nas sátiras dos corredores do Itamaraty.

Além disso, a busca de culpados pelos fracassos previsíveis de um modelo político e econômico excêntrico, perverso e escandalosamente equivocado serve de justificativa para um eventual arrefecimento da repressão política.

Nunca se falou tanto em comunismo no Brasil e nos Estados Unidos desde a queda do Muro de Berlim na década de 1990. Muro, aliás, que domina os discursos de ódio proferidos por Trump para esconder os escândalos financeiros e de corrupção que cercam o seu governo, fortemente ameaçado por impeachment.

A linha discursiva de ódio é repetida em outros países comandados pela extrema-direita, como a Hungria de Victor Orbán contra os imigrantes, o Brexit Britânico contra os “continentais” e a direita italiana contra os refugiados ambientais da África. Em todos esses países o discuso de ódio ajuda a esconder fatos como, por exemplo, que Brexit representará um recuo de mais de 9% no PIB britânico nos próximos 5 anos.

Outro aspecto importante é que a criação de adversários fictícios sempre foi uma estratégia da extrema-direita para manter privilégios das elites ou fortalecer medidas de austeridade e de exclusão social. A América Latina nunca foi ameaçada por uma invasão comunista. A Revolução Cubana foi uma rebelião contra o colonialismo norte-americano no país e acabou iludindo até seus líderes quanto à expansão no continente.

A Alemanha nunca sofreu ameaça dos judeus e quando Hitler subiu ao poder o partido comunista encontrava-se enfraquecido pelo assassinato de líderes importante como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, além do envelhecimento das principais lideranças do partido social-democrata.

O ranço direitista tem outros objetivos: manter um debate binário e maniqueísta entre o bem e o mal; esconder os reais problemas que afetam o país; fugir da discussão econômica; esconder a corrupção (sim, ela nunca esteve tão presente) e impor um perverso sistema de exclusão social.

Além disso, resta apenas um vazio patético de quem chegou ao poder defendendo bandeiras ridículas como o projeto “escola sem partido”. A direita, como sempre, atuando como agente político, é uma mera representação de alienação extrema com preconceito, mais nada. O problema é que as suas piadas intencionais sempre viram tragédias.

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