Empobrecido porque rico

.Por Iolanda Toshie Ide.

O anúncio da descoberta da imensa jazida de petróleo na camada do pré-sal provocou intensa euforia em setor da sociedade que conhecia o preço do “ouro negro”. A grande maioria da população detinha pouca informação que possibilitasse, pelo menos em parte, alcançar a dimensão do ocorrido.

A descoberta não ocorreu como um toque de mágica, como sorte propiciada pelo acaso. Pelo contrário, foram necessários amplos investimentos, avançada tecnologia, tenacidade de competente equipe de pesquisa, criatividade, resiliência. A despeito de toda essa grandeza, nós, da Marcha Mundial das Mulheres, adotamos outra perspectiva: a da preservação da vida.

Se, para muitos, o uso de combustíveis fósseis tem sido prioridade, a sustentabilidade da vida tem orientado nossas reflexões. Fomos alvo de incompreensão, como se nossa visão fosse obsoleta. A prospecção de petróleo do pós-sal provoca negativos impactos sobre a biodiversidade, sobre a saúde dos seres vivos, animais e vegetais. Quando se trata do pré-sal, os prejuízos são ainda mais agudos. Não sem razão optamos: que o petróleo do pré-sal, pois, permaneça onde está. Quaisquer que sejam as fontes de energia, urge a mudança do nosso padrão de consumo.

Se os enormes investimentos na prospecção do pré-sal tivessem sido direcionados para a pesquisa e desenvolvimento de fontes de energia não fósseis, provavelmente teríamos gerado conhecimento e tecnologia menos poluentes, evitando várias enfermidades que causam tanto sofrimento e oneram o SUS. O amplo e abusivo uso de combustíveis fósseis é um dos causadores das mudanças climáticas que ameaçam nossa sobrevivência e a dos demais seres vivos.

A “opção” pelo caminhão e pelo carro não ocorreu impunemente: culminou na substituição das ferrovias pelas rodovias e no uso indiscriminado de combustíveis fósseis. Bauru não ficou sem diesel porque é transportado por ferrovia.

A “maldição” do petróleo abateu-se, sob forma de bloqueio e golpe (2002), sobre o país que detém a maior reserva petrolífera: a Venezuela. A descoberta do pré-sal não foi alvo da cobiça dos de sempre. Assim como a Ford a nós se impôs com a exigência da importação do combustível estadunidense, o monopólio de suas montadoras, seus caminhões e tratores definiu o tipo de transporte e de agricultura que nos afundou nas erosões e rios assoreados, assim também, a cobiça das corporações (de prospecção e refino) atingiram-nos pela espionagem, golpe e rapina.

Não se trata de “maldição”, mas o “ouro negro” é objeto da cobiça do império que, estando em decadência, arremete-se violentamente sobre países ricos. [Convém lembrar que os Estados Unidos deviam ao Brasil, em 2014, 550 bilhões.] Aqui, como na África e na América chamada latina, países ricos, têm seu povo empobrecido pela rapina dos colonizadores de ontem e de hoje.

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