.Por Ricardo Queiroz.
Conheço o centro de SP. Carrego o orgulho meio jeca, provinciano de saber me movimentar pelo centrão desde a época de moleque. Garimpar os sebos de discos e livros, tomar mate com leite, conhecer as ruas, os tipos, o frugal e a barra pesada.
Com o tempo esse orgulho foi somando outro orgulho: a maioria das pessoas despreza, tem medo ou nutre aquele saudosismo improdutivo do centro de SP. Quem anda de carro sobe o vidro e ignora o entorno, quem é obrigado a passar eventualmente, o faz como se tivesse enfrentando um martírio. Daí, o orgulho de andar a pé por esses quadriláteros, no meio do povo esquecido, orgulho de classe.
Medo produz medo, medo promove abandono e o centro é um dos produtos da cultura do medo. É a fatia da cidade que todo mundo acha lindo pelos nichos de arquitetura europeizada, mas foge da gente cinza que nele anda e do cheiro de urina das suas ruas.
No caminho entre o Ita e o La Farina, passamos em frente ao velho prédio da PF na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Antonio Godoy. Sempre que passo ali em frente, me vem a imagem do Delegado Romeu Tuma e das sacanagens que devem ter rolado na sua estada naquele prédio.
Há uma ocupação nesse prédio há anos, ela é uma espécie de síntese das coisas que personagens como Romeu Tuma fizeram para o Brasil da ditadura para cá. Abandono, violência, cerceamento de direitos, destruição planejada e pobreza.
Acordei cedo hoje, primeiro de maio, dia de comemorar o trabalho, dia de comemorar em protesto mais do que nunca. A primeira imagem que veio na tela quando abri a web, foi a do velho prédio da Rio Branco com a Godoy em chamas.
Tenho o costume de clicar o Centro, congelar digitalmente as minhas peregrinações centrais. De novo coisa de jeca, o jeito possível de tecer uma crônica imagética e continua dessas andanças e das histórias nelas entrelaçadas. No meio disso tudo existem alguns registros do prédio da Rio Branco com a Godoy, longe de estar pleno, mais ainda firme na decadência.
Hoje ele é apenas memórias e cinzas.
As fotos são de 2015 e 2016. (Do Facebook de Ricardo Queiroz)
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