Crônica do prédio que pegou fogo em São Paulo faz a síntese do Brasil pós-Ditadura de 64

.Por Ricardo Queiroz.

Conheço o centro de SP. Carrego o orgulho meio jeca, provinciano de saber me movimentar pelo centrão desde a época de moleque. Garimpar os sebos de discos e livros, tomar mate com leite, conhecer as ruas, os tipos, o frugal e a barra pesada.

Com o tempo esse orgulho foi somando outro orgulho: a maioria das pessoas despreza, tem medo ou nutre aquele saudosismo improdutivo do centro de SP. Quem anda de carro sobe o vidro e ignora o entorno, quem é obrigado a passar eventualmente, o faz como se tivesse enfrentando um martírio. Daí, o orgulho de andar a pé por esses quadriláteros, no meio do povo esquecido, orgulho de classe.

Medo produz medo, medo promove abandono e o centro é um dos produtos da cultura do medo. É a fatia da cidade que todo mundo acha lindo pelos nichos de arquitetura europeizada, mas foge da gente cinza que nele anda e do cheiro de urina das suas ruas.

Ontem eu recebi a visita do meu sobrinho Ruben e da sua companheira, que moram em Belo Horizonte. Eles me pegaram na Barra Funda e fomos almoçar no Centro. Queriam “comida de verdade”. Pensei no Ita, o velho restaurante da Rua do Boticário, 31. O Ita estava fechado. A fome se resolveu no La Farina na Rua Aurora.

No caminho entre o Ita e o La Farina, passamos em frente ao velho prédio da PF na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Antonio Godoy. Sempre que passo ali em frente, me vem a imagem do Delegado Romeu Tuma e das sacanagens que devem ter rolado na sua estada naquele prédio.

Há uma ocupação nesse prédio há anos, ela é uma espécie de síntese das coisas que personagens como Romeu Tuma fizeram para o Brasil da ditadura para cá. Abandono, violência, cerceamento de direitos, destruição planejada e pobreza.

Acordei cedo hoje, primeiro de maio, dia de comemorar o trabalho, dia de comemorar em protesto mais do que nunca. A primeira imagem que veio na tela quando abri a web, foi a do velho prédio da Rio Branco com a Godoy em chamas.

De pronto lembrei do Andraus e do Joelma, a metáfora da ditadura e do seu ato contínuo, o povo que ocupava o prédio até ontem, a pobreza das pessoas e o abandono do centro, gente sem nome que vive no meio de fios soltos, umidade, escadas cheias de lixo, elevadores quebrados, gente do Centro.

Tenho o costume de clicar o Centro, congelar digitalmente as minhas peregrinações centrais. De novo coisa de jeca, o jeito possível de tecer uma crônica imagética e continua dessas andanças e das histórias nelas entrelaçadas. No meio disso tudo existem alguns registros do prédio da Rio Branco com a Godoy, longe de estar pleno, mais ainda firme na decadência.

Hoje ele é apenas memórias e cinzas.

As fotos são de 2015 e 2016. (Do Facebook de Ricardo Queiroz)

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