Um estudo feito por Caio Vinícius Cipro, pós-doutorando no Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadores franceses, identificou traços de metais pesados em diversos tipos de invertebrados, peixes e aves habitantes de um dos lugares mais remotos do planeta.
A pesquisa foi feita nas ilhas Kerguelen, pertencentes às Terras Austrais e Antárticas Francesas. Kerguelen reúne 300 ilhas e ilhotas no sul do oceano Índico, a meio caminho entre a África e a Austrália, 4 mil quilômetros ao sul da Índia e 2 mil quilômetros ao norte da Antártica.
O arquipélago, de origem vulcânica, é coberto por geleiras, rochas e lava solidificada há muito despejada por um vulcão dormente, o monte Ross, ponto culminante do local. A vegetação é de tundra, açoitada por um vento frio constante. No local há uma estação de pesquisas que abriga 120 pessoas no verão e menos da metade no inverno.
Em 2014, Cipro publicou na Polar Biology a primeira parte de sua pesquisa, na qual constatou a contaminação de petréis pardela-preta (Procellaria aequinoctialis) por cobre, selênio e zinco. A segunda parte, publicada agora na mesma revista, demonstra contaminação por metais em peixes e em invertebrados marinhos.
Além do cádmio e do mercúrio de fontes naturais, há os metais resultantes do despejo de poluentes por fábricas localizadas a mais de 10 mil quilômetros de distância. Micropartículas de metais pesados liberadas no meio ambiente chegam aos oceanos e, enquanto ficam em suspensão em águas superficiais, são absorvidas pelo zooplâncton, invertebrados microscópicos que formam o esteio da cadeia alimentar oceânica. O zooplâncton serve de alimento para os consumidores marinhos primários: moluscos, crustáceos, os menores peixes e também os maiores animais vivos, os cetáceos misticetos como a baleia-azul.
Lulas, mexilhões, crustáceos e peixes, por sua vez, são a fonte de alimento dos consumidores secundários. Cada partícula de metal pesado que penetra na base da cadeia alimentar oceânica acaba acumulada em tecidos dos grupos de animais que ocupam os seus degraus mais altos: peixes como atum e tubarões, aves e mamíferos como focas, leões-marinhos, golfinhos e orcas.
“Comparando os dados de contaminação em todos os ecossistemas, apareceram resultados interessantes. Em uma grande baía onde estão localizadas as maiores colônias de aves marinhas de Kerguelen, os mexilhões têm concentrações de cádmio maiores do que aquelas registradas entre os mexilhões de outras partes das ilhas. Tudo indica que a fonte de cádmio que contamina os mexilhões são as colônias de aves marinhas no golfo de Morbihan, onde fica Port-aux-Français, a maior comunidade daquelas ilhas, com uma população de 40 pessoas no inverno e 120 durante os meses de verão”, disse Cipro. (Carta Campinas com informações de divulgação)
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