Após 50 anos, Geraldo Vandré ressurge caminhando e cantando: esperar não é saber

Geraldo Vandré em show histórico: mais belo que milhões de “Fora, Temer!”

.Por Marcos Freitas.

Vandré foi um ótimo ator. Meio atrapalhado e desnorteado, às vezes esquecia o texto e roteiro. Também pudera, 50 anos longe desse lugar sagrado: o palco. Agora, diante de um público ansioso que queria um Vandré 50 anos mais jovem, com cara de Che. Eu também queria, não vou mentir. Mas o que tínhamos diante dos olhos era um velhinho inofensivo.

Estremeci quando ouvi sua voz. Lembrei de Aroeira. Lembrei de “Quanto mais eu ando, mais vejo estrada, mas se eu não caminho eu não sou é nada…”. “Fica mal com Deus, quem não sabe dá. Fica mal comigo, quem não sabe amar!”

Ele começou cantando em espanhol. Depois declamou uma poesia do soldado que não sabia se estava vivo ou morto. Talvez morto-vivo!

Quando entrou a orquestra e ele não entrou, eu fiquei desconfiado: será que ele não vai cantar mais nenhuma canção?

A orquestra toca e o coral sinfônico canta Fabiana, música escrita para Força Aérea Brasileira – FAB. Em seguida, Para não dizer que não falei das flores. Porra! Cadê, Vandré?

A “Véia” (Vera, da MMM) se levanta das fileiras da frente e sobe as escadas até o fundo da Sala de Concertos José Siqueira. A orquestra encerra Caminhando acompanhada de um coro, que agora é de 800 pessoas, uníssonas!

O maestro anuncia a última música, ponho-me de pé indagando: Cadê, Vandré?

Antes do maestro encerrar, Vandré entra com o seu dedo esgrimando o ar. Cochicha no ouvido do maestro e passa a fazer os agradecimentos.

Agradece a Lau Siqueira, secretário de Cultura, e sua equipe que cuidou dele com uma atenciosa amizade.

Agradece o responsável por ele estar ali, o autor do convite, o governador Ricardo Coutinho.

Por fim, agradece um almirante de mar e terra que eu nem conheço, nem faço questão.

O melhor vem agora. Alguém coloca uma bandeira do Brasil no palco. E ele canta: Pátria Amada…. “Se é pra dizer adeus/Pra não te ver jamais/Eu, que dos filhos teus/Fui te querer demais…”. Música muito bonita por sinal. Mas não era essa que eu queria.

É aplaudido. Mais uma vez, esgrima o ar, se esquiva por entre os pedestais, vai ao público e arrasta Ricardo para ao palco. Mais aplausos!

Com um gesto de braço, devolve Ricardo a plateia. Com outro, agarra a flâmula Nacional. Se põe de pé e diz: “vou cantar só um pouquinho dessa: Lálálaia! Lálálaia! Lálálaia! Caminhando e cantando/E seguindo a canção/Somos todos iguais/Braços dados ou não/Nas escolas, nas ruas/Campos, construções/Caminhando e cantando/E seguindo a canção/Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer…”.

Cantou todinha! Foi muito lindo! A continência, ao final, antes de ser pra o general, foi para o Povo de sua Terra. De sua Pátria Amada.

Sobre os militares: nem todos são golpistas. Não esqueçamos das revoltas tenentista e da chibata. Não esqueçamos dos Pracinhas, nossos bravos soldados que lutaram contra nazifascismo na Europa na Segunda Guerra, que em 2012 foram homenageados pelo Levante Popular da Juventude.

Dona Elizabeth Teixeira surpreendeu-me, em um de seus discursos, ao dizer que, quando foi presa em 1964, tinha sido muito bem tratada pelo Exército Brasileiro. Fez balançar a imagem negativa que eu havia generalizado das Forças Armadas.

Nem todo patriotismo é burro. Acredito que as trabalhadoras e os trabalhadores são uma só classe, mas que os povos têm uma história e uma identidade. Somos brasileiros e nos orgulhamos disso. Essa identidade mobiliza nosso povo.

Ontem, ver e ouvir Vandré cantar “Caminhando” valeu por mais de 200 milhões de “Fora, Temer!”

Foi emocionante, lindo e necessário.

*Marcos Freitas militante da Consulta Popular e da Frente Brasil Popular na Paraíba. Texto escrito sobre o Concerto em homenagem a Geraldo Vandré, realizado em João Pessoa nos dias 22 e 23 de março. O evento marca o retorno aos palcos do cantor e compositor, símbolo da luta contra a ditadura, 50 anos após seu último show. (Do Brasil de Fato)

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