A carta de Marielle Franco aos bastardos da PUC

“Aos bastardos da PUC-Rio, com carinho,

.Por Marielle Franco.

Chegar à PUC-Rio pode parecer algo um tanto tenso: a natural insegurança em ocupar um espaço novo; pessoas e normas ainda desconhecidas… É impossível não sentir aquele frio na barriga! Ainda mais quando ouvimos aquelas histórias de que há professores que dão textos e filmes em inglês sem tradução, de que não se veem alunos e professores negros em sala de aula, de que a principal reivindicação estudantil é a diminuição do preço do estacionamento, de que o pilotis da PUC é um desfile de moda… e por aí vai. Não há um manual que resolva tudo que passa na nossa cabeça nesse momento, mas algumas pistas são importantes para ajudar a descortinar uma nova rotina acadêmica, sem deixar de considerar a nossa realidade econômica, política e social. A primeira delas é não se deixar afetar por tudo que é falado sobre a PUC. As vivências, por mais que existam importantes similaridades coletivas, são individuais e tudo vai depender muito de como você encara o mundo e os desafios colocados. Eu, por exemplo, optei pelo diálogo franco e constante com professores diante das dificuldades pelas quais passei, seja como mãe jovem, trabalhadora e moradora de favela. Desde a limitação concreta de me locomover da Maré até a Gávea, para a primeira aula às sete da manhã, até as atividades extracurriculares que não pude fazer em virtude do meu trabalho ou mesmo pela falta de grana para custeá-las.

Apresentar para quem quer que seja a nossa realidade concreta não é ser vitimista, ainda mais com a perspectiva de trilhar caminhos possíveis e alternativos às limitações encontradas. Nesse sentido, a vice-reitoria comunitária também é uma parceira fundamental para questões objetivas e para oportunidades dentro e fora da universidade. É importante cercar-se de pessoas, sejam colegas de turma, professores ou funcionários, que possam contribuir para que a passagem pela PUC seja plena. Essa é sem dúvida uma ótima estratégia para a sobrevivência acadêmica.

Além disso, buscar compreender a PUC-Rio em sua complexidade, enquanto uma universidade privada de qualidade e legitimidade acadêmica, é também entender que, em uma sociedade desigual, racista e machista, as raras oportunidades não devem ser subutilizadas. Pensando nisso, ser um filho ‘bastardo’ da PUC não pode ser encarado como algo ruim, precisamos reivindicar um novo significado político: o ‘bastardo’ é aquele que resiste às desigualdades. Por isso, é necessário que o nosso histórico pessoal seja uma mola que impulsione a nossa vida acadêmica. Sem perder de vista a nossa identidade, o lugar e a família que nos gestaram, viver a PUC-Rio é quase uma missão política e social, já que o processo pedagógico é uma via de mão dupla: quando nos transformamos, modificamos também tudo e todos à nossa volta. A nossa presença na PUC-Rio já é, por si só, um ato de resistência! Boa viagem acadêmica, política, econômica e social.” (grifo Carta Campinas)

Recent Posts

108 cursos de medicina foram reprovados no Enamed e serão supervisionados pelo MEC

(foto fernando frazão - ag brasil) A primeira edição Exame Nacional de Avaliação da Formação…

12 hours ago

Comédia farsesca ‘Entre a Cruz e os Canibais’ revê o mito dos bandeirantes e as origens de São Paulo

(foto heloisa bortz - divulgação) Em São Paulo - O diretor e dramaturgo Marcos Damigo…

18 hours ago

Plataforma gratuita de streaming, Tela Brasil, será lançada neste semestre

(imagens divulgação) Concebida pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura em parceria com a…

1 day ago

Bloco Vermelho ganha as ruas com samba-enredo próprio no Carnaval 2026

(imagem divulgação) Pela primeira vez em sua história, o Bloco Vermelho, que foi criado em…

2 days ago

Cientista brasileiro nomeado para a OMS precisou de escolta armada durante o governo Bolsonaro

(foto fiocruz amazônia) O médico infectologista da Fiocruz, Marcus Vinicius Guimarães Lacerda, que foi nomeado…

3 days ago

Vem aí: Festival A Rua É Nóis vai ocupar a Estação Cultura com rap, funk, reggae e rock

Brunna, idealizadora do “O Funk Ensina" (foto reprodução - instagram) O Festival A Rua É…

4 days ago