Não somos juízes

.Por Eduardo de Paula Barreto.

Alguém me perguntou: – Onde você mora? Sem perda de tempo, respondi:
Como poeta, vivo sentado na beirada de uma cratera de um planeta distante, de onde posso olhar para a Terra. É curioso ver as coisas lá de cima, as pessoas estão limitadas numa mesma esfera, mas parecem pertencer a mundos diferentes.

Lá vai o senhor engravatado assumir, mais uma vez, o comando de sua empresa. Ele se veste bem, usa perfume importado e possui um carro de valor exorbitante.
Ao sair do escritório, liga para sua esposa e inventa uma desculpa qualquer para justificar o atraso para o jantar. Vai direto para um desses clubes privé e dá vazão à sua luxúria nos braços de uma garota de programa.
Ela, literalmente, aluga seu corpo por variados motivos – mas não convém julgá-la.

Ao sair do clube, o austero senhor é surpreendido por um homem que, exibindo uma arma, o assalta com violência e levando os seus pertences, sai correndo.
Ele é um fora-da-lei por variados motivos – mas não convém julgá-lo.

Apesar do enorme susto, o empresário chega a salvo em casa. Sua esposa o conforta – mas talvez se soubesse de onde ele estava vindo, desejaria que o incidente tivesse sido mais sério -.
Ele a traiu, deve ter tido os seus motivos – mas não convém julgá-lo.

Deitados na cama ligam o televisor para relaxar um pouco. Sintonizam um jornal. As notícias, na maioria estressantes, fazem com que prefiram desligar o aparelho e apenas conversar. Logo entregam-se ao sono.

De repente resolvo olhar para as selvas, onde feras convivem. O animal mais fraco serve de manutenção da vida do mais forte. Eles têm hierarquia em seus bandos, mas a utilizam sem soberba. É pura questão de ordem.

As fêmeas cumprem o seu papel, cedem ao instinto, perpetuam a espécie e ninguém as julga. O alimento é de quem pegar primeiro, todos de certa forma são ladrões, mas não fazem isso por maldade, mas para sobreviver. Infinitamente inferiores aos humanos, não são dotados da capacidade de mentir, enganar, humilhar, trair conscientemente e destruir o seu habitat.

Então aquele alguém que havia me perguntado onde eu morava, quis que eu lhe desse o meu endereço para que pudesse me visitar, ao que respondi:
– Sinto muito, mas sou o único habitante do meu planeta, onde, por não haver pessoas, também não há mentira e desumanidade e se eu lhe der o meu endereço, logo, todos vocês irão para lá. E se isso acontecer não terei mais a possibilidade de ficar sentado na minha cratera tentando entender os seres deste planeta.

Vocês são a minha única distração, pois não disponho de um aparelho de televisão. Talvez eu esteja lhe parecendo filosófico demais, egoísta ou recluso – mas não convém julgar-me.

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