Quase 80% da população brasileira quer que os mais ricos paguem impostos, revela pesquisa

A pesquisa Nós e a desigualdade, divulgada nesta quarta-feira (6) pela ONG Oxfam Brasil, investigou a percepção dos brasileiros sobre a desigualdade e aponta que a má distribuição da renda, do patrimônio e dos serviços essenciais no país não passa despercebida pela população que, em sua maioria, defende ser papel do Estado corrigir essas distorções, financiado por mais impostos pagos pelos mais ricos.

A maioria dos brasileiros se manifestou contra a ideia de um Estado mínimo: quase 80%, exatos 79% acreditam que o combate a desigualdades entre indivíduos é obrigação de governos.

Na avaliação da Oxfam, a sociedade brasileira “mantém a expectativa de que governos reduzam a distância entre ricos e pobres, jogando no colo dos muito ricos, maior responsabilidade pelo financiamento de políticas sociais”.

Ao mesmo tempo que a pesquisa revela que a maior parte dos brasileiros (75%) é contra o aumento geral de impostos para financiar políticas sociais, mostra que a resposta das pessoas muda quando consultadas sobre uma cobrança maior de impostos especificamente para pessoas muito ricas. “O expressivo número de 71% dos entrevistados apoia o aumento de impostos para pessoas muito ricas, desmistificando a ideia de que o brasileiro é anti-impostos por princípio”, diz o levantamento, encomendado pela ONG ao Instituto Datafolha.

A pesquisa entrevistou 2.025 pessoas de 129 municípios de pequeno, médio e grandes portes, incluindo regiões metropolitanas e cidades do interior das cinco regiões, em agosto de 2017, com divisão etária, de gênero, cor e renda. A margem de erro para a amostragem geral é de 2% para mais ou para menos.

Em relação à redistribuição da carga tributária, que atualmente pesa mais sobre os mais pobres, a percepção também é que os ricos precisam pagar mais. “Como se sabe, o peso dos tributos indiretos é bastante alto no sistema tributário nacional, o que acaba por onerar mais quem ganha menos”, diz a pesquisa. Diante da pergunta “O governo deveria diminuir os impostos sobre os produtos e serviços que a população consome e compensar a diferença com aumento de impostos sobre a renda dos mais ricos”, 72% dos brasileiros se disseram favoráveis à redução da carga indireta e aumento da carga direta sobre pessoas muito ricas.

A injustiça tributária do país foi tratada no relatório A Distância que nos Une, publicado em setembro de 2017, também pela Oxfam, segundo o qual, os 10% mais pobres da população brasileira gastam 32% da renda em tributos, contra 21% de gastos de renda dos 10% mais ricos. Se forem considerados apenas os tributos indiretos, a parcela mais pobre compromete 28% da renda com tributos, contra 10% da camada mais rica.

Diferenças regionais

Entre os entrevistados, 82% concordaram totalmente ou em parte com as afirmações “O governo deve ter como prioridade diminuir a desigualdade entre as regiões mais ricas e as regiões mais pobres do país” e “O governo deve transferir dinheiro público para que os rstados com serviços públicos ruins ofereçam a mesma qualidade dos estados que têm serviços públicos bons”.

Sobre as possíveis soluções para enfrentar a desigualdade no país, 71% dos brasileiros apontam a oferta de emprego como um dos principais mecanismos de combate à desigualdade; 67% acham que a saída é mais investimento em educação e 61% defendem reformas do sistema político.

Desigualdade e meritocracia

Diante da pergunta “O que é desigualdade?”, a maioria dos entrevistados destacou as desigualdades socioeconômicas. Parte focou nas diferenças de classe social e má distribuição da renda (39%), outros na carência de recursos e serviços (8%) e outros nas diferenças na ação do governo e da classe política (7%).

Outro ponto importante apontado pela pesquisa é a opinião dos brasileiros em relação ao papel do esforço pessoal para obtenção de sucesso. Diante da afirmação “No Brasil, uma pessoa de família pobre e que trabalha muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito”, 60% responderam que não concordam. “Tal constatação nos permite inferir que, para os brasileiros, as desigualdades não são simplesmente produto das diferentes capacidades e níveis de esforço individual”, avalia a Oxfam.

Ao mudar a afirmação, com o objetivo de verificar o papel atribuído pela população à educação como fator chave na determinação de desigualdades, o resultado foi parecido. Frente à frase “No Brasil, uma criança de família pobre que consegue estudar tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma criança nascida em uma família rica”, 55% dos entrevistados discordaram, apesar de o acesso à educação de qualidade ter entrado nas respostas sobre as causas e soluções para a desigualdade no país. (Agência Brasil)

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