Mães de jovens assassinados engravidaram precocemente, revela pesquisa

Abandono e negligência do Estado em relação à população de baixa renda e às mulheres estão intimamente ligados aos homicídios de adolescentes, aponta uma pesquisa realizada em Fortaleza no Ceará.

O contexto familiar diz muito sobre as mortes que envolvem adolescentes e revela omissões e negligências em série. O coordenador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para o Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí, Rui Aguiar, explicou que muitas das mães de adolescentes vítimas de homicídio engravidaram precocemente e abandonaram os estudos. A pesquisa revela, por exemplo, que 85% dos adolescentes que cumprem medidas de internação têm a mãe como principal responsável familiar.

“Grande parte das casas tem como renda principal a renda da mulher, que muitas vezes foram adolescentes grávidas, abandonaram a escola, perderam oportunidades e hoje têm empregos precários ou sobrevivem apenas com o Bolsa Família”, ponderou. Segundo Aguiar, a prevenção a homicídios na adolescência deve envolver investimentos robustos em políticas para as mulheres.

Veja mais:
Criminalização do aborto expõe mulheres à morte em todas as classes sociais, mostra pesquisa
Eduardo Cunha é contra a descriminalização, mas se delicia em países com aborto legal
É contra a descriminalização do aborto, mas adora Paris, Londres e Nova York
Número de mortes de mulheres e de abortos diminui com descriminalização

As informações são do Comitê Cearense de Prevenção de Homicídios, apresentada hoje (15). O colegiado reúne parlamentares da Assembleia Legislativa do Ceará, representantes do governo estadual, da prefeitura de Fortaleza e organizações da sociedade civil.

Pesquisadores visitaram bairros de várias regiões da capital cearense, sobretudo na periferia, e unidades de internação de jovens infratores e aplicaram 385 questionários entre familiares de adolescentes que foram mortos e jovens que cometeram homicídios e cumprem medidas socioeducativas. Embora as histórias sejam distintas, muitas situações se repetem entre os entrevistados. Entre os adolescentes assassinados, por exemplo, 73% foram mortos no bairro ou território onde moravam. E mais de 60% dos adolescentes que morreram tinham deixado a escola pelo menos um ano antes da morte.

“Muitas das mães ouviram os tiros que mataram seu filho”, disse a pesquisadora Camila Holanda, integrante da equipe técnica do comitê. Para ela, os pontos em comum nas trajetórias desses jovens revelam a existência de uma adolescência abandonada, inclusive pelos serviços públicos. Entre os meninos mortos, por exemplo, 74% havia deixado a escola. Entre os que cometeram assassinato, 64% estavam na mesma situação.

O relator do comitê, deputado estadual Renato Roseno (PSOL), disse que as mortes que tiveram adolescentes como vítimas ou autores subiram muito nos últimos 16 anos em Fortaleza. O Mapa da Violência revela que capital cearense tem a mais alta taxa de homicídios de crianças e adolescentes do Brasil.

“A morte não é um evento solto, mas um processo que começa no abandono: vulnerabilidade individual e familiar pela ausência de políticas públicas e pelo território onde moram. Há muitos sinais de alerta, como o acesso ao mercado de armas, ameaças que não são investigadas e a completa ausência de resposta aos homicídios existentes”, listou.

Roseno disse que o objetivo da pesquisa é entender os homicídios para além do senso comum e direcionar políticas públicas de prevenção. (Carta Campinas com informações da Agência Brasil)

Recent Posts

Entidades protestam em frente à Meta contra manipulação do Facebook e Instagram

(imagem reprodução) Diversas organizações da sociedade civil, entre elas o ANDES-SN (Sindicatos Nacional dos Docentes…

3 hours ago

Sala secreta de sócio oculto de Flávio Bolsonaro é estrutura para compra de imóveis em dinheiro vivo

(imagem reprodução) A Polícia Federal (PF) encontrou uma sala secreta em um hangar no Aeroporto…

4 hours ago

Na reta final para as eleições, Campinas volta a ocupar as ruas nos atos Sextou com Lula e Bora Lula

Bandeiras erguidas na sexta-feira e uma caminhada no sábado vão marcar os últimos dias de…

5 hours ago

Exposição apresenta diversidade da cena cultural de Campinas pelas lentes de 11 fotógrafos

Foto de Marilda Tedesco (divulgação) O Ponto de Cultura Núcleo de Fotografia de Campinas (NuFCa)…

6 hours ago

As Comadres colocam pimenta no forró em show dançante ao ar livre e gratuito

(lu bortolini - foto divulgação) O forró pé de serra ganha voz feminina e novas…

8 hours ago

Solo ‘Quando Falta o Ar’ volta ao cartaz em apresentação única no Teatro Maria Monteiro

(foto firmino piton - pmc) O espetáculo “Quando Falta o Ar”, solo escrito e interpretado…

9 hours ago