O drama do Brasil é a vitória momentânea da estupidez sobre a razão

O texto abaixo expõe de forma bastante clara o drama do Brasil atual: uma momentânea vitória das estupidez sobre a razão, uma vitória momentânea da mentira sobre a verdade. A guerra entre mortadelas e coxinhas é insignificante diante da guerra entre a ignorância e a racionalidade que abala o país. Essa vitória momentânea da estupidez só foi possível com uma partidarização de setores do poder judiciário e com o acobertamento e partidarização dos interesses da grande mídia.

O MST E A MORTE DE RAMSAY BOLTON
(Ou: uma reflexão sobre a estupidez)

Liderados por Jon Snow, terroristas petralhas e selvagens do MST invadiram a fazenda do empresário tucano Ramsés Boltão, no norte do país, destruíram sua lavoura de anos, sequestraram sua esposa e o espancaram até a morte. E isso a Globo não mostra! Gente, que absurdo!

Não, amigos e amigas, eu não enlouqueci. Também não hackearam a minha página. Estou dividido, nesse momento, entre o medo e o riso. O medo pela epidemia de estupidez e burrice motivada que assola os Sete Reinos e o riso pelas coisas que eu estou vendo nas redes sociais, nos jornais e nas ruas. Explico: alguém quis testar os limites da ignorância verde-amarela e publicou no Facebook o meme que reproduzo aqui, relatando uma suposta invasão do MST a uma fazenda do Norte, onde teria sido espancado e assassinado um fazendeiro que, por acaso, tem um nome muito parecido ao do personagem de Game of Thrones que morreu no último — espetacular! — episódio da série da HBO, da qual sou muito fã, como vocês sabem. Aliás, a foto que ilustra o meme irônico é do ator britânico Iwan Rheon, que interpretava o Ramsay Bolton. O teste foi um sucesso tão grande que dá medo: muitas pessoas acreditaram na falsa “notícia” e o meme foi compartilhado por diferentes páginas e grupos de ultra-direita, provocando uma quantidade absurda de comentários indignados e revoltados de pessoas que pedem “intervenção militar já” como resposta para a suposta invasão do MST.

Devo rir? Devo chorar? O que a gente faz, amigos e amigas?

Essa burrice que se estende no mundo está provocando cada vez mais tragédias e o renascimento de formas de fascismo que acreditávamos terem sido enterradas depois da Segunda Guerra Mundial. Na hora, quando a gente vê episódios como o que estou relatando aqui, dá vontade de rir, mas se pensarmos um pouco, não é engraçado. É assustador. Só a educação, a cultura e a afirmação dos direitos humanos pode nos salvar de uma nova tragédia. Precisamos acordar antes de que seja tarde. Pensando nisso tudo, lembrei de uma passagem do livro 1984, de George Owell, que parece tristemente atual:

«Os herdeiros das revoluções francesa, inglesa e americana haviam em parte acreditado em seus próprios chavões sobre direitos humanos, liberdade de expressão, igualdade perante a lei e assim por diante, permitindo inclusive, dentro de certos limites, que sua conduta fosse influenciada por eles. Só que aproximadamente nos anos 1940 todas as principais correntes de pensamento político eram autoritárias. O paraíso terrestre fora desacreditado exatamente no instante em que se tornara praticável. Todas as novas teorias políticas, seja lá como se autodenominassem, reeditavam as ideias de hierarquia e regimentação. E no enrijecimento geral de perspectivas instaurado por volta de 1930, algumas práticas havia muito abandonadas, em alguns casos centenas de anos — prisões sem julgamento, escravização de prisioneiros de guerra, execuções públicas, tortura para extrair confissões, uso de reféns e deportação de populações inteiras —, não apenas voltaram a se tornar comuns como eram toleradas e defendidas até por pessoas consideradas esclarecidas e progressistas.» (Do Facebook de Jean Wyllys)

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