Por uma vida ‘azedinha’

Por Julicristie Oliveira

Ao fazermos compras em supermercados nos deparamos, em geral, com uma certa monotonia no que se refere à variedade de frutas, legumes, verduras, raízes, tubérculos e bulbos. Até mesmo em relação ao espaço físico, a área destinada aos citados alimentos frescos é muitas vezes reduzida quando comparada ao espaço ocupado pelo mar de alimentos empacotados, enlatados, envasados.

Mesmo quem se preocupa em comer diariamente as recomendadas porções de frutas, legumes e verduras, não encontra muita diversidade nas redes varejistas. É preciso um certo empenho. Toda vez que vou ao supermercado, dou uma olhada para a gôndola mais distante, aquela prateleira mais baixa, o canto escondido. Já achei caxi, maxixe… Muita gente nunca comeu, nem ouviu falar. Temos muitos alimentos para (re)descobrir.

Neste sentido, algumas pessoas tem se dedicado a divulgar estes alimentos. Até cunharam o termo Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Prefiro apenas dizer que são alimentos esquecidos, marginalizados, apesar de muitos gostosos, saudáveis e bem adaptados ao nosso ambiente. Muitos são plantas espontâneas e não precisam de tanta dedicação no cultivo.

Esta semana consegui encomendar “azedinha” com um produtor de alimentos orgânicos da região. Confesso que nunca tinha comido. Confesso também que estava bem curiosa. A “azedinha” faz justiça ao seu nome. Comi como salada, com beterraba e temperada só com um fio de azeite. Seu gosto é tão particular que recomendo dispensar o sal. Como é saborosa!

Muitas pessoas tem aversão ou pouca tolerância a sabores azedos e amargos. Não é de se estranhar que muitas vezes, para dizermos que algo deu errado, usamos os termos “azedou” ou “amargou”. Mas, todos nós podemos aprender a apreciar o diferente. Conhecer outros alimentos pode ser uma aventura fantástica por novos sabores, receitas, cozinhas. Além de ser um “prato cheio” de nutrientes essenciais e saúde. Me lembrei que “trevo” é um outro termo também usado para designar “azedinha”. Uma espécie de sorte para a nossa comida.

Julicristie M. Oliveira tem doutorado em Nutrição em Saúde Pública, é professora do Curso de Nutrição da FCA/Unicamp e atua na área de Educação e Segurança Alimentar e Nutricional.

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