Pequena coletânea cor de chumbo

Fúria

Eles vieram com as suas tochas,
Por um roteiro mais do que previsto
Clamando a ordem e atirando rochas
Para banir da Terra o anticristo.

Diziam-se a serviço do progresso
E eram obcecados por limpeza,
Mas trabalhavam pelo retrocesso,
Nas mãos intransigentes da certeza.

Seu argumento era a truculência,
O bom senso falava e não ouviam,
A ira derrubava a consciência
E eles atropelavam e seguiam.

Escravos de um sistema corrompido
Temiam sua própria liberdade.
E as lágrimas de um povo oprimido
Pra eles era pura falsidade.

Plantando dissabor, covardemente,
Reavivaram o ferimento antigo
E a história não foi suficiente 
Pra que vissem, de fato, o inimigo.

Fizeram-se jagunços de tiranos,
Da repressão, da força e da censura.
Nenhuma paz cabia nos seus planos
De mais prisões e mortes e tortura.

Enfim chegaram, pela via bruta,
Os guardiões dessa justiça torta.
E os donos da verdade absoluta
Acabam de arrombar a minha porta.

 

Estes dias 

A tristeza destes dias esmagou as minhas rosas, me podou as alegrias, reduziu as minhas prosas a um palavrório vil e tudo em que eu acredito e o que vida fez de mim tornaram-se pestilências venenosas ao Brasil. A história de onde eu vim e as veredas que pisei estão sendo destruídas, é triste, “em nome da lei”. Uma legião se ergue contra a paz de que disponho, pra pisar em meu sorriso, tirar o ar do meu ar, fazendo o que for preciso pra que o que foi o meu sonho sinta medo de sonhar. A tristeza destes dias, cor de um chumbo do passado, não quer ouvir poesias, faz pouco dos meus amigos e acinzenta o colorido duramente conquistado…
Mas meu coração só ama, minha força não se cansa, minha mente ainda crê. 
Ah, tristeza desses dias, como é preciso esperança pra não casar com você!

Louco de paz

Não, não quero ir com os certos, os puros, os espertos. Eu vou ficar pra trás, em paz, com pouca gente, eu vou querer ser louco, mas contente. Eu quero errar, liberto da certeza, porque, apesar dos brados de brabeza, a verdade nem liga e segue ilesa.

 

Love’s in the air…

De ódio em ódio o dia anoitece, 
A noite escurece, o amor amortece, 
A dor adormece, a gente faz prece 
E a gente xinga e a gente se vinga 
E a gente se esquece, então, sem demora, 
A gente só chora, a gente só chora 
E a gente não ama e a gente reclama 
Que amar é mais fácil da boca pra fora…

 

A luta

Lute por um país melhor para nossos filhos! Eduque-os para o amor, a tolerância, a sustentabilidade e o livre pensamento. Assim não irão absorver o medo do discurso de medo nem o ódio do discurso de ódio… sentirão tristeza pela ignorância e esperança no esclarecimento.

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