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Nos tempos de Odorico Paraguaçu

Frederico Leal

Uma pesquisa da Fe-comércio – RJ, mostra que 7 em cada 10 brasileiros não tocaram num livro em 2014.

 Ignorância que atravanca o progresso.

 Olho para o meu umbigo e o repreendo: por que se meteu a leitora e escritora num país que preza pela burrice? Merece a condenação. A sensação de isolamento.

 Sou uma intelectual sem carteirinha. Não fiz mestrado, doutorado, mas estudei os muitos assuntos que me interessavam ao longo dos meus já maduros anos. Por desejo de conhecimento.

Não sou chegada no saber carimbado por títulos e outras honrarias, entre as quais, a possibilidade de se encastelar em universidades, e não ver a cara do povo.

Como artista, prefiro o ser humano no formato básico: pobre, agoniado, desejoso. Atualmente, esse ser humano é representado pelos jovens da periferia que se encantam com o pouco que lhes posso oferecer em matéria de conhecimento e cultura.

Aliás, tais jovens me mostram, cotidianamente, que o problema da educação, ou da falta dela, não se resume ao fato de as famílias não estimularem o acesso à cultura, nem tampouco aos baixos salários de professores.

 Na verdade, eles estão ansiosos por aprender, mas não se contentam com as receitinhas de livros que os entediam, não os desafiam; apenas os amarram à carteira, a um script trágico do qual eles são as mais prejudicadas vítimas, uma vez que seus destinos começam a ser gerados agora, na juventude.

 Hoje esteve em minha casa um coletor da FEDEX. Muito simpático, conversamos sobre a qualidade de serviços no Brasil e, claro, acabamos por compará-la às dos países desenvolvidos.

 O papo evoluiu para o estado de calamidade em que vivemos: violência e educação sem qualidade foram os dois temas que mais nos tomaram.

 O coletor, num certo momento da conversa, com vergonha de não ser politicamente correto, me pediu desculpas pela expressão que usaria e disse: acho que o objetivo da educação brasileira é formar “burros”.

 Cá estou pensando em Nelson Rodrigues que não tinha papas nas línguas.

 Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Fácil, não? Burrice generalizada. Doa a quem doer. Burrice construída pelos políticos de direita e de esquerda, pelos seus seguidores, por pesquisadores e educadores, todos responsáveis pela atual situação.

 Não adianta jogar a culpa (ou responsabilidade) no outro. Não adianta se esquivar: somos todos responsáveis! E, assistimos indignados à avalanche que ameaça nos enterrar vivos.

 Vivos e ignorantes.

Carta Campinas

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