Pequena coletânea do tempo


1) Hei de me lembrar

Não me lembro se desde o nascimento,
Não me lembro se com prazer ou pranto,
Não me lembro a partir de qual momento,
Plantamos decisões por todo canto,

Mas cada decisão é um sentimento,
Que envolve mais que nós sob seu manto,
E presas num passado poeirento,
As decisões decidem, por encanto,

Ressurgir qual cirúrgico instrumento,
De penetrar na alma, tanto e tanto,
Só pra extirpar de nós o esquecimento.

2) Pirralhei

Quando a chuva beijou o meu grisalho,
Me lembrei de vovó com seu abraço,
Da cozinha, do bolo e do mormaço,
E deslizei no liso do assoalho.

Me lembro que corria pro trabalho,
E dei risada e pisei na poça,
Lembrei do tempo que passei na roça,
Quando a chuva caiu no meu grisalho,

Voltei para me ver nadar no lago,
Pra um divertimento sem ser pago,
E pus meus pés descalços no cascalho.
Hoje a chuva molhou o meu grisalho

E de tão encharcado me fiz leve,
E vai durar pra sempre, ainda que breve,
Que revivi, quando me vi pirralho.

3) Naturandemos

O presente precisa futurar
E o futuro são passos naturais,
Sigas naturalmente, não te assustes,
Que onde vemos mudanças radicais,
Pra Natureza são meros ajustes
Ao eixo a que devemos orbitar.

4) Não há mais tempo!

O tempo é uma palavra poderosa,
É cíclica espiral de vermos reta,
É tão diverso e cabe em tanta prosa,
É abstração que quisemos concreta.

É a causa e o fim da esperança,
Finalidade nobre dos mistérios,
É o ancião vivendo na criança,
São sorrisos moldando rostos sérios.

É a metamorfose da crisálida,
É a virtude nas vestes do vício,
É o rubor corando a carne pálida,
É um sem fim, não mais que sem início.

É o algoz de quem pensa possuir,
É a voz com que nos chama a natureza,
A mancha desmanchada no tapir,
O argumento maior contra a certeza.

É a lágrima no rosto de quem chora,
O suporte de cada sentimento,
É o ficar pra sempre e o ir embora,
É o todo envolvido em um momento.

É o caos carregando a coincidência,
É cada badalar de cada sino,
É o pai protetor da paciência,
É a surpresa escondida no destino.

É o desenhar de um “M” em cada mão,
É o ódio virando amor fraterno,
O inverno incubado no verão,
É o efêmero já de um hoje eterno.

É o ato certo que já foi um erro,
É um relógio ligeiro que demora,
É o lixo dormente num aterro,
É o belo e o terror de cada agora.

É a tempestade oculta na bonança,
Todas as retas que já foram curvas,
São os pés que conduzem e é a dança,
E as águas limpas que pensamos turvas.

É a mais complexa simplicidade,
Somos nós no espelho e é o baque,
É a juventude de qualquer idade,
Disfarçada de eterno tic-tac.

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