Por Juliana Morais Belo

Flores nascem em todos os lugares. De todos os tamanhos e cores. Em climas secos e chuvosos. Li em algum site (não consigo me recordar qual) que flores surgiram como mecanismo de defesa para que óvulos depositados ficassem protegidos. Em outras palavras, foi o conhecido processo de evolução e adaptação que levou à necessidade de mudança na estrutura de algumas plantas. É curioso pensar que algo associado à fragilidade, beleza e perfume tenha se desenvolvido para garantir a preservação da vida. A flor é o órgão reprodutor da planta. Do seu néctar surge o alimento de alguns insetos e assim esse ciclo de vida se permanece.

Em diversas sociedades, podemos ver o quanto as flores foram e ainda são cultivadas. Na Mesopotâmia, na China de Confúcio e no Japão feudal, elas já eram importantes e valorizadas. Da Turquia, a tulipa foi levada aos países baixos e enlouqueceu e encantou tantas pessoas. Cheguei a ver um filme em que as pessoas disputavam de forma colérica alguns bulbos da flor para tentar ter fortunas. Na literatura e nas artes de uma forma geral elas não estão ausentes: Shakespeare, Virgínia Wolf, Cartola, Olavo Bilac, Antoine de Saint-Exupéry e Vinícius de Moraes. A lista é longa e não pretendo ser injusta com outros nomes que poderiam estar com muita facilidade nesse parágrafo.  

Do nascimento à morte elas estão presentes. Cobrem leitos e caixões. Em casamentos, são carregadas pelas noivas e jogadas às outras mulheres para que estas tenham sorte. E são símbolos de diversas crenças e religiões, como o cristianismo e o budismo e o hinduísmo. A famosa flor de lótus tem suas raízes fixadas no fundo lamacento dos lagos. Ela sobe até a superfície para florescer. Daí está sua importância: da aparente sujeira nasce uma das mais belas e simbólicas flores.

Nos últimos dias, ao cuidar dos meus cachorros no quintal, notei que tinha uma flor no meio do concreto. Havia uma pequena rachadura e naquele espaço surgiu vida. Não era de estonteante beleza, mas estava ali – uma flor esquisita, brigando para viver e embelezar um canto da minha casa. Diferente das outras flores que comprei no supermercado, essa brotou dali, do cimento. Impossível não lembrar do lindo poema de Drummond, “A flor e a náusea”, em que alguns versos ecoam: “ Uma flor nasceu na rua! […] Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto”.

Curiosamente, no mesmo dia folheei um livro de mitologia para separar algum material para meus alunos. De forma quase involuntária (nem sei ao certo se foi mesmo), vejo que a origem da rosa (uma das mais queridas e lindas flores) na mitologia grega está relacionada à morte de uma ninfa. A deusa Clóris transformou o corpo encontrado num bosque numa flor. Afrodite, deusa da beleza, deu-lhe beleza. Dionísio, o deu do vinho, ofereceu néctar e deu-lhe perfume doce. Zéfiro, deus do Oeste, afastou os ventos para que Apolo, deus Sol, pudesse brilhar para fazê-la florescer. Com tanto esplendor e grandeza, foi logo consagrada rainha de todas as flores.

Como nada acontece ao acaso, após toda essa observação ao meu redor e de ler nas páginas do meu livro sobre flores, recebi um convite para assistir uma defesa de conclusão de curso. Mas esse não era qualquer evento e não era qualquer pessoa. 

Na última segunda-feira, dia 21 de junho, Melissa Silva, aluna travesti, defendeu o TCC e se tornou a primeira bibliotecária da PUC Campinas. Ao iniciar a defesa, dedicou o trabalho às tantas trans que sofrem(ram) violência e não puderam chegar ao ensino superior. Uma mancha de sangue ilustra suas palavras dão doloridas e está fixada em um dos primeiros slides.

A fala de Melissa é firme, sem choro e com muita segurança. Os cabelos estão soltos, esvoaçantes e com maquiagem impactante. Mel, como é conhecida por muitos, termina sua defesa e deixa todos em êxtase. Como ex-professora do curso técnico que ela iniciou na prefeitura de Campinas, só posso dizer que a flor se defendeu e sobreviveu. Melissa, que tem o mesmo nome de mais uma flor tão popular, está viva. Essa é a nossa defesa. É assim que nos revoltamos em tempos de tantas fezes, de delírio e de assassinatos de tantas travestis. Obrigada, Mel! Obrigada, Flor, Obrigada, Ninfa furiosa! 

Melissa Silva (Imagem: Trava Cultural)