Em busca dos sabores capitais: uma vegana em Vitória

Por Julicristie Oliveira

O sabor desconhecido da moqueca nas entranhas. O som e ser ouvido da panela no fogo. O vermelho imaginado borbulhando nos olhos. O cheiro não sentido do barro queimando. O mar a ser de areia grossa sob os pés. Quais seriam os “sabores capitais“ de Vitória? Neste texto, relato um final de semana de férias que dediquei para buscar os sabores veganos na capital do Espírito Santo, em Janeiro de 2017.

Cheguei Vitória em uma sexta-feira. Fui para a hospedagem que encontrei pelo Airbnb. A Carolina, minha anfitriã, muito simpática, me convidou para um vinho e me apresentou uma amiga, a Paula, que depois se aventurou comigo por Vitória durante todo o final de semana.

Um dos meus planos era conhecer o galpão das paneleiras do bairro de goiabeiras. O ofício dessas mulheres é considerado patrimônio brasileiro e teve a salvaguarda registrada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional) em 2002. Combinei com a Paula de irmos no sábado cedinho conhecer o galpão. O ofício é lindo. As paneleiras me explicaram como se faz as peças: onde se escolhe o barro, como se molda, queima e pinta. Tive dificuldade de escolher uma peça só, mas optei por uma tigela média. Trouxe um pedaço de Vitória para mim.

De goiabeiras, fomos conhecer o restaurante Mãe Divina, situado na Rua Domingos Leal, 200, Vila Velha, Grande Vitória. O prato do dia era quibe de quinoa, com recheio de creme de tofu, acompanhado de arroz com lentilha, cebola caramelizada, homus e salada. A comida estava maravilhosa.

O Mãe Divina é um dos melhores restaurantes veganos que conheci, sem dúvidas. O dia estava vagaroso e conseguimos ainda passar em uma feira de orgânicos onde comprei pão de milho não transgênico, além de feijão vermelho.

No domingo, fomos conhecer o restaurante Natural Sol da Terra, situado no Hortomercado, Rua Licínio dos Santos Conte, 51, onde há uma grande variedade de saladas e legumes assados. Primeiro me certifiquei se era tudo realmente vegano. Após a confirmação, experimentei uma espécie de panachê de legumes feito também com palmito fresco que me fez repetir o prato porque foi o melhor palmito que já provei.
Entre idas e vindas, ainda consegui andar de bicicleta pela orla de Vitória, conhecer as ilhas e suas praias de areias grossas.

No domingo à noite, fui circular nos restaurantes da Praia do Canto para achar a moqueca de banana da terra. Li umas histórias na internet que a preparação fora inventada de improviso para servir turistas vegetarianos. A moda pegou. Hoje em dia, é possível encontrar o prato em vários restaurantes da cidade.

Escolhi ir no restaurante Partido Alto, situado na Rua Joaquim Lírio, 865. Pedi a moqueca acompanhada de arroz e salada. Foi servida na panelinha de barro de goiabeiras. Aquele molho de tomate intenso continuou fervilhando na mesa ainda por muito tempo. Estava tudo delicioso. A moqueca capixaba é diferente da baiana, pois leva azeite doce (de oliva), cebola, tomate fresco, urucum e salsinha e cebolinha, uma receita com forte com influência indígena. Geralmente, é acompanhada por pirão, feito com cebola, tomate, urucum, farinha de mandioca e outros ingredientes.

É, vitória tem gosto de moqueca, moqueca vegana de banana da terra, cozida em panela de barro feita pelas mulheres-patrimônios.

Julicristie M. Oliveira tem doutorado em Nutrição em Saúde Pública, é professora do Curso de Nutrição da FCA/Unicamp e atua na área de Educação e Segurança Alimentar e Nutricional.

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